As Raízes de Sal - A Fuga de Natanael Nabor

Abytter é um velho lobo-do-mar contador de histórias, sendo o mais experiente tripulante do navio Ganso Negro do Capitão Allef. Ao longo dos anos contou muito do viu e ouviu.. Algumas delas você pode achar que são lendas, mas tenha a certeza de que ocorreram...

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Abytter
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As Raízes de Sal - A Fuga de Natanael Nabor

Mensagem#1 » 24 Fev 2012, 17:13

As Raízes de Sal: A Fuga de Natanael Nabor

O suor escorria pelas barbas de Haraq, O Justo.

O hálito quente e morno que insistia em sair de forma infinita pela abertura de acesso avisava a todos os que estavam parados na entrada das minas de sal da localidade de “Mina” que ali devia começar uma jornada pelo inferno mítico.

Um lembrete tátil do mito que assombrava a muitos. E uma verdade dolorosa para os que caíssem nas mãos da Lei Iluminada.

Os ecos de tais costumes reviravam as mentes dos condenados que os ouviram quase que infinitas vezes, obrigados a repeti-los ao longo da “caminhada do sal”, como era chamada a angustiante trilha para os grilhões brancos que seguia pela garganta da terra.

A Mais singela menção a tais lugares fazia com que criminosos e foras da lei de todos os cantos de Zakhara pensassem e repensassem diversas vezes suas decisões, muitas das quais banhadas em uma aura escura e maligna. O sorriso de Ragarra.

Agora era tarde.

Contava-se no apodrecer de uma pêra os dias de vida de quem entrava nas escuras cãmaras salinas. E esta ampulheta macabra já escorria há dias para o pequeno halfling.

Onde haveria ele errado?
Na decisão abrupta de subir no telhado? No terror misturado a menção de figuras que no passado o assombraram na distante Portão Ocidental? Nos dias anteriores de perseguição e disputa? No acerto dramático e mortal de suas lâminas lançadas?

Agora, duas crianças jaziam mortas. Olhos esbugalhados de dor diante da rapidez dos fios frios da morte.

O Qadi queria ser impetuoso. Exemplar. Inexorável.
Mas o testemunho envolvido pelo manto inexpugnável da verdade o havia feito repensar. As palavras tremidas pela incompreensão dos próprios atos intempestivos transbordavam angústia, arrependimento e tensão.

Ma o fato era consumado e a lei teria que ser aplicada.
Afinal, “Um homem sem honra, não é um homem”, já profetizavam os Al-Badian. Hoje, infestando os corações dos Al-Hadhar.

O Feudo de Sangue foi exigido pelas famílias, porém os custos palpáveis diante dos homens, exemplificados em parcas moedas de ouro seriam retirados pelo trabalho duro e estafante, empilhados em pilares de sal rentáveis.

Mais havia uma luz em meio às trevas do trabalho massacrante. E isso o pequeno halfling não esquecia.

O sussurro fora claro. E mesmo que ele acreditasse que fosse algo de sua imaginação, o toque frio do metal entregue em forma de adaga enquanto era transportado de Qudra as minas o lembrava do toque da sorte. Do presente de Tymora. Naquele Oasis havia ocorrido um exemplo da fé.

E agora era chegada a hora da libertação.

Zamidij, o Antigo, condenado por furtos, trapaças, engodos e mortes sem fim no alto deserto o havia ensinado. A rota do vento estava pronta.

A adaga escondida em uma reentrância na parede branca desde o dia que chegara fora agora retirada. Seria sua única extensão de esperança.

O canal misterioso, descoberto ao acaso sob a maestria de um desmoronamento, descia para as profundezas negras e acreditava-se pelos sons emanados, escondia um rio. Zamidij tinha a certeza de que este pequeno sopro de vida levava a algum lugar lá fora. Era preciso tentar.

O espaço diminuto entre as paredes quase imperceptíveis era digno de um pequenino. Talvez nem o Senhor das Cavernas dos Orcs, Luthic, poderia saber onde chegaria. Meses antes, o velho, único ser vivo que não havia ainda sucumbido, havia feito um trato com o perigoso Hamad Ibn Husser, O Rato. Ao lhe mostrar a rota de fuga única e sem garantias, selou um pacto de troca pelo qual deveria de alguma forma ser resgatado ou sua família em Tajar avisada.
Em vão.

No início achou que O Rato havia se afogado ou sumido, tragado pelas veias úmidas da terra vIsto que nenhuma garantia lhe havia sido dada, e nenhum sinal apareçera.

Mas a meses atrás a garantia chegara.

O mentiroso Qualim Hassud chegara às minas de sal já doente e em seus delírios antes da morte rápida balbuciara no ouvido do velho um recado de Hamad. Infelizmente, o jovem fugitivo havia também caído na captura de Qualim e agora apodrecia pendurado no galho de uma árvore nos platôs que ligam Qudra a Baía de Suq. Apesar de não esquecer, não pôde cumprir.
Mas o recado, este, trazia o aroma da liberdade.

Era preciso tentar.

Por mais que trabalhasse arduamente, a balança do opulento Haraq não acompanhava em nada sua alcunha de “O Justo”. O sal nunca valia.
Responsável pelo pesar da produção dos condenados, o sorriso amarelado e apodrecido do imóvel contador transbordava o sadismo dos que venderam a alma.

A morte tocaria em breve o pequeno halfling que tossia a dias o “mal do sal”. Era necessário tentar.

Esgueirando-se pelas paredes cavadas pela força das águas no passado, o pequenino se prepara. As mãos seguram as bordas do sepulcro que abaixo poderia lhe levar a liberdade.

Qualim segurava um pequeno saco de pano enquanto o pequenino se espremia passando os pés para a sessão do túnel que descia para o desconhecido.

As mãos agora seguravam as do velho que lhe desejava sorte em dialeto antigo entoado em uma canção vinda das montanhas do leste.

A adaga e o pequeno saco amarrados junto ao corpo, eram a única lembrança de que carregava algo. A sacola de pano com pequenas tâmaras contrabandeadas para os carcereiros e devidamente roubadas seriam sua única ajuda. A túnica esfarrapada era apenas a lembrança do que um dia fora uma peça de vestuário. Os pés descalços tocavam com suas pontas a pedra fria. O corpo pendia. O coração quase explodia.

O velho e o pequeno halfling se fitaram por segundos. Mesmo no escuro sabiam que trocavam esperanças no olhar.

O sussurro fétido do velho, saído de uma boca limosa e quase sem dentes, foram as últimas palavras que os ouvidos peludos escutaram.

- “Prenda o máximo que puder. Que a sorte lhe guie”

As mãos se desenrolaram e a ansiedade se transferiu de forma rápida demais para a sensação de choque gelado nos pés, pernas, dorso, cabeça.. e mãos.

Agora antes que pudesse pensar a respeito das palavras proferidas, já as exercitava em instinto. Mas a surpresa quase o fez soltar o ar quando o corpo fora puxado com violência pela forte e surpreendente corrente que a incontáveis anos rompia pelas profundezas.

Na entrada das minas, o temerário Haraq bebia. Ao sorver a água limpa com gosto de quem exerce o poder se descuidou e deixou cair quase todo o conteúdo na camisa rasgada e suja que talvez, nem lembrasse usar.
Ao seu lado o jovem aprendiz, sem tirar as mãos dos papéis que preenchia com letra desenhada, ousou provocar:

- Cuidado Haraq, desperdiçar ÁGUA pode ser um presságio.

O cínico e desprovido contador apenas sorriu escancarando seus dentes parcos e podres e fitando o céu azul causticante. - Só se for aviso de que vai chover. Ha ha ha ha ha ha ha

Sua gargalhada não desceu muitos metros na escuridão. Não alcançou sequer as câmeras de acesso ao poço.



No escuro, agora submerso e espremido, o pequenino tentava proteger o corpo do forte impacto com as duras bordas que emolduraram aquela misteriosa corrente.

“..Que a sorte lhe guie”

Seria preciso.
E ele sim, sorria em silêncio.

Crônicas de Abytter
As Raízes de Sal: A Fuga
Livro 225
Última edição por Abytter em 05 Mar 2012, 17:02, editado 1 vez no total.

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Digimundo
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Re: As Raízes de Sal: A Fuga - Livro 255

Mensagem#2 » 24 Fev 2012, 21:23

Irado.
Issso foi no jogo? Po.. se o Allef escreve assim a 15 anos temos um livo já. Muito maneiro caras. Parabéns mesmo.

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Hibernando
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Re: As Raízes de Sal: A Fuga - Livro 255

Mensagem#3 » 25 Fev 2012, 00:11

legal demais.

:hmmm:

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DragonSun
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Re: As Raízes de Sal: A Fuga - Livro 255

Mensagem#4 » 25 Fev 2012, 12:36

Texto foda hein?
Viajei aqui.

martivir thurirl

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FoxMountain
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Re: As Raízes de Sal: A Fuga - Livro 255

Mensagem#5 » 25 Fev 2012, 13:08

Boa leitura mesmo. Dá para perceber e viajar na história mesmo. É cheia de detalhes e tenho certeza que algumas coisas só saca quem joga a campanha. Mas tá bem legal.

Escrevam mais aqui sobre esta que deve ser mesmo a maior campanha em andamento no país.

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MumiaAnciã
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Re: As Raízes de Sal: A Fuga - Livro 255

Mensagem#6 » 26 Fev 2012, 17:10

Não me surpreende pela imensa quantidade de anos que o Allef mestra e seus jogadores o acompanham.
Texto muito bom mesmo e os detalhes nos fazem dar uma viajada realmente pelo universo de Zakhara.
Quase pude sentir a claustrofobia das tais minas.
Olha se a aventura toda estiver nesta forma, o que falta para publicar?

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Trogo
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Re: Crônicas de Abytter As Raízes de Sal: A Fuga - Livro 255

Mensagem#7 » 26 Fev 2012, 20:02

Estou entendendo que Abytter é um cronista das aventuras certo? Um alter ego do Allef. Legal isso.
Assim como o cronista de Conan, acho que saberemos mais da campanha através deste personagem? Que aliás, está na mesa? Pertence a alguém ou é um grande NPC?


O
nde haveria ele errado?
Na decisão abrupta de subir no telhado? No terror misturado a menção de figuras que no passado o assombraram na distante Portão Ocidental? Nos dias anteriores de perseguição e disputa? No acerto dramático e mortal de suas lâminas lançadas?


Boa a passagem. Aqui sei que se trata de uma parte já até narrada pelo Ronassic.
Mas há pequenos trechos que acho que só internamente os jogadores podem entender.

O cínico e desprovido contador apenas sorriu escancarando seus dentes parcos e podres e fitando o céu azul causticante. - Só se for aviso de que vai chover. Ha ha ha ha ha ha ha

Sua gargalhada não desceu muitos metros na escuridão. Não alcançou sequer as câmeras de acesso ao poço.


Caras, eu vi este final.

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FocaBranca
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Re: Crônicas de Abytter As Raízes de Sal: A Fuga - Livro 255

Mensagem#8 » 28 Fev 2012, 11:02

Que maneiro demais hein?
A história é bem contada pacas.

- “Prenda o máximo que puder. Que a sorte lhe guie”


Vi aqui o Gandalf mandando a galera correr do Balrog! :haha:

Gostei dos detalhes dos personagens pois assim ficam super vivos para nós que lemos.
Espero que o capitão e o rona traga mais.

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Soul-lyryc
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Re: Crônicas de Abytter As Raízes de Sal: A Fuga - Livro 255

Mensagem#9 » 29 Fev 2012, 01:51

Se todos os jogos fossem narrados assim seria bem mais legal de ler. É tipo romanceado certo?
Há alguma boa narrativa de perda de algum importante personagem?

:diabanjo:

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Leprechau
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Re: Crônicas de Abytter As Raízes de Sal: A Fuga - Livro 255

Mensagem#10 » 01 Mar 2012, 11:33

Bem que o Lyric falou caras que legal o jogo. E adorei esta narrativa pois parece um romance tipo os de Forgotten. Mas tá cheio de suspense.
Deveriam ir colocando tipo, um a cada sessão que fizerem.
Vou acompanhar.

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TimeMaster
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Re: Crônicas de Abytter As Raízes de Sal: A Fuga - Livro 255

Mensagem#11 » 01 Mar 2012, 16:32

Muito bom mesmo.
Já falei com o capitão mas repito: Vocês deveriam colocar ao final do texto uma tipo glossário sabem, par que pudéssemos entender melhor alguns `easter eggs" do enredo.

Mas estão de parabéns,
Não há nada parecido em andamento , há?

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Kelzan
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Re: Crônicas de Abytter As Raízes de Sal: A Fuga - Livro 255

Mensagem#12 » 02 Mar 2012, 11:15

Desculpe capitão e rona mas só hoje pude ler com calma e caras, que maneiro hein?
é um livro meu amigo.
Vocês precisavam, sei lá, construir textos mais próximos a suas aventuras e assim poderíamos ler alguma coisa do que se passa. Há a opção que um jogador meu já fez que é escrever o seu próprio diário. A visão passa a ser deste indivíduo.

Tenho certeza que o Allef já deve ter lido todas mas...

A FUGA - http://www.quemtemsedevenha.com.br/fuga.htm

:hmmm:

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Own_mystical
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Re: Crônicas de Abytter As Raízes de Sal: A Fuga - Livro 255

Mensagem#13 » 02 Mar 2012, 22:41

Pô Rona até o OldDragon vai escrever livro. O que vocês estão esperando?
^_^

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GenghisRei
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Re: Crônicas de Abytter As Raízes de Sal: A Fuga - Livro 255

Mensagem#14 » 03 Mar 2012, 01:12

Fiquei muito feliz em finalmente ler alguma coisa que rola na mesa debutante do capitão.
Mas o texto é de quem? Gostei muito e acho que a idéia de se fazer ao final um tipo de "guia" o melhor. Tornará mais clara a leitura.

O estilo é bem legal na medida que nos faz querer saber o que vêm depois.
Há energia nas açòes e o suspense é real. Deu para imaginar com precisão os passos da fuga.
Gostei demais da descriçào do que parece ser o carcereiro que ao emsmo tempo entendi ser o responsável pela pesagem de um sal que sempre pende para baixo.
Aqueles tipos detestáveis saídos de um filme do Sergio Leone. Quase senti o hálito podre.

Vou acompanhar de perto e dou esta força aí para ao menos lançarem um PDF de contos.
Acho que seria sucesso.

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Erick-Ruivo
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Re: Crônicas de Abytter As Raízes de Sal: A Fuga - Livro 255

Mensagem#15 » 03 Mar 2012, 14:42

Isso precisa virar uma obra pública para o bem do RPG.
Porra, t`á na hora de mostrar que o RPG é a fonte de inspiraçào mais legal que há.

Arruma tempo e escreva mais. Bem legal isso ai cara.

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