O Choro de Symbele – O Retorno da Sorte

Abytter é um velho lobo-do-mar contador de histórias, sendo o mais experiente tripulante do navio Ganso Negro do Capitão Allef. Ao longo dos anos contou muito do viu e ouviu.. Algumas delas você pode achar que são lendas, mas tenha a certeza de que ocorreram...

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Abytter
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O Choro de Symbele – O Retorno da Sorte

Mensagem#1 » 05 Mar 2012, 16:27

O Choro de Symbele – O retorno da Sorte

E não se fez soar o sino.

Os brados ouvidos a distância entoavam cânticos antigos.
O lugar era mais que seguro.

O conforto da fé o havia resgatado de tudo. Da fúria, de uma lâmina, de um erro, da impetuosidade da adolescência, dos inimigos, da morte.

Agora, o que o passado moldara se escondia em novos trajes, crenças, certezas e objetivos. A mão, antes refúgio seguro de mensagens da morte, agora segurava uma moeda. O símbolo da Senhora que habita as terras de Sune e Selûne semeando a sorte em vida seria o novo farol. A bússola, esta seria o destino. A Terra dele.

Ele sorri.
As lembranças se embaralham enquanto arruma lentamente as longas mangas por baixo do manto. Um dia, à sombra da impetuosidade quase o fez errar. O aprendizado seria imortal. Jamais subestimar os movimentos e conhecimentos de um halfling.

Ele se senta para calçar as leves sandálias de caminhada. E ao concluir o nó, se recorda da corda jogada. O navio sombreado em chamas evocado na fala mística do sacerdote ainda o assombra.
Nos relatos medonhos dos que tudo viram, repousa o peso flamejante de algumas mortes. As quais ele sabe, podem não ter sido em vão. Ou pior, podem não ter sido.

Pela janela vislumbra os pássaros no alto telhado oposto. O contorno de um gato os espreitando, denunciado pelo sol a contraposto parecia uma máscara. E apesar do dia que nascia, noturna o era.
Ele passa os dedos em uma das orelhas. O frio do ferro em aço deve ser terrível. Poucos são os que voltaram destes encontros para contar o que testemunharam. E ele também os conhecia. Ao lavar o ferimento do pequeno amigo distante naquela noite de terror em meio a recordações nefastas, aproveita para molhar a boca com um gole de seu cantil. Enxugando o rosto com a palma da mão, os olhos fitam o passado. E através do vidro ele imagina a sorte que tiveram. A Sorte. Guarda o cantil.

Os risos dos amigos ao redor da coxia ainda em Villayet se confundem com os rumores do lado de fora da cela monastérica confortável. E ele sente o aroma do pão na manhã derradeira. O gosto do papel amassado com o caminho da riqueza ainda se mistura ao do pão mastigado com rapidez enquanto falava com o melhor amigo. E o rei quase morimbundo de vinho roncava. Naquele dia, de sol anunciado, tal como hoje, partira.

A bolsa é fechada.
E então na aridez do couro cru ele novamente sente o peso dos sacos que molhados, iam forrando de esperança e avareza o convés. Sonhos e desejos eram depositados em barris pelos esforços de homens que queriam ser marinhos. E o conseqüente vento provocado pelas clavas e troncos nas mãos do imensos seres das colinas o fizeram de novo tremer. Por pouco o último fecho não selara.

A espada, mítica arma simbólica agora era segura como cajado. Não mais ao redor da cintura se fazia sentir, mas a sombra projetada no chão dando asas a silhueta era a única lembrança que ele a carregava. Suas armas agora, eram imensuráveis.
Sentindo o peso de tudo, abriu a porta.

Os primeiros passos retiraram das sombras protegidas um novo ser.
A luz do sol trazia a clareza da nova face. No chão do trapiche que comportava todas as portas um espelho. Ao pegá-lo com a certeza de que o levaria, o reflexo o transportou a outros.

A face adornada pela beleza e inteligência dos elfos se fez notar em lembranças. Poucos são os que puderam sentar-se próximos. Ele conviveu entre eles. Os entendeu aos poucos, acompanhou sua habilidades, impropérios, gestos majestosos, tiros certeiros, saltos graciosos e erros de aprendizado.

O cavalo selado o aguardava.
Não havia despedida, gestos ou acenos. A longa conversa no salão da Grande Senhora na noite anterior já o havia dito tudo. Verifica novamente o pouco que possui em moedas dos homens. Mas monta, sabendo que ninguém poderia contar agora suas moedas de fé.

Ele já tinha os nomes. Sabia onde ir. Como chegar. O que fazer.
As incertezas eram o que o incomodava.
Havia muita dedicação em jogo. E agora a necessidade de sagrada realização executar. Um chamado era fato. E cabia somente a ele respondê-lo.

O peso dos equipamentos leves não o incomodava. Acomodado nos alforjes do animal, de todos os objetos entregues, um se fazia notar.

Na polidez das cores sensatas e limpas, na fluidez dos tons simples e recatados o vermelho escarlate quase não se fazia esconder. A afirmação saída da boca do alto credo era finalizada com o olhar penetrante de quem sabia do peso das palavras proferidas.

Ele devia claro, estar certo.

Ao sair da segurança dos portões da casa da sorte, ao cruzar as pradarias e os campos de trigo, sem olhar para trás, ele ainda pensava nas palavras proferidas. E somada a sensação de liberdade demorada, misturavam-se sorrisos de prazer, anseio, dúvida, gratidão e curiosidade.

Quando, porque e aonde deveria um dia vestir-se de vermelho?

- Crônicas de Abytter – O Choro de Symbele – O retorno da Sorte
Livro 57

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Leprechau
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Re: O Choro de Symbele – O Retorno da Sorte

Mensagem#2 » 05 Mar 2012, 17:58

Que maneiro!!!
Alguém abandona um templo?
Muito bom.

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TimeMaster
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Re: O Choro de Symbele – O Retorno da Sorte

Mensagem#3 » 05 Mar 2012, 19:11

Na polidez das cores sensatas e limpas, na fluidez dos tons simples e recatados o vermelho escarlate quase não se fazia esconder. A afirmação saída da boca do alto credo era finalizada com o olhar penetrante de quem sabia do peso das palavras proferidas.




OLHA, POSSO ESTAR ERRADO MAS O CARA GANHOU UMA MISSÃO MACABRA AQUI HEIN? :hmmm:

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MumiaAnciã
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Re: O Choro de Symbele – O Retorno da Sorte

Mensagem#4 » 05 Mar 2012, 21:27

O texto está carregado de mistérios. E na verdade acredito que muita das coisas ai colocadas só farão sentido ao próprio autor. Devem haver ganchos implícitos certo Rona?
Há muita coisa pela metade, tipo, um certo mistério no ar.
O fato é que alguém realmente está saindo de um mosteiro e segundo para uma aventura sinistra.

Não entendi claro algumas passagens, mas vou acompanhar.
O fod*** é que os textos estão descompromissados total. Mas esta ausência de linearidade é que faz o tempero.
Muito bom mesmo. Merecia um blog.

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Raconn
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Re: O Choro de Symbele – O Retorno da Sorte

Mensagem#5 » 05 Mar 2012, 21:47

Um texto repleto de passagens em bacjground:
"A bolsa é fechada.
E então na aridez do couro cru ele novamente sente o peso dos sacos que molhados, iam forrando de esperança e avareza o convés. Sonhos e desejos eram depositados em barris pelos esforços de homens que queriam ser marinhos. E o conseqüente vento provocado pelas clavas e troncos nas mãos do imensos seres das colinas o fizeram de novo tremer. Por pouco o último fecho não selara."


Demais hein?
Olha, se os tais tomos do allef forem assim, como o Ronassic já contou então a obra deve ser fod****

Mas me diz, estas passagens são as tais "linhas vermelhas" do mestre?
Não saquei isso.

:tsc:

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ronassic
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Re: O Choro de Symbele – O Retorno da Sorte

Mensagem#6 » 06 Mar 2012, 08:51

Comentando rapidamente, não... As escritas em vermelho não são esses textos, na verdade esses textos todos do Abytter ele escreve depois quando passa para o computador.
As escritas em vermelho são as coisas que só o mestre sabe, e não convém naquele momento que os jogadores saibam, são o pano de fundo do que ocorre ao mesmo tempo no jogo. Como quando um halfling do grupo rouba algo, e algum mercador descobre e avisa a algum capanga para seguí-lo e dar-lhe um castigo futuramente, algo do tipo.
"O topo da inteligência é alcançar a humildade."

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Trogo
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Re: O Choro de Symbele – O Retorno da Sorte

Mensagem#7 » 06 Mar 2012, 11:28

Há claramente partes de um todo que somente o mestre e os jogadores percebem. Mas a narrativa é surreal e bastante cativante.
O mistério nas ações é latente e percebe-se que os passos são contados com cautela.
Gostei bastante da descrição psicológica do personagem, a angústia que sente é perceptível.
Quero ler o que vier daí, ou seja, o prosseguimento destas ações.
Imagino que o mestre deva ter cuidado para não expor demais as passagens que comprometam suas ações futuras.

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Soul-lyryc
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Re: O Choro de Symbele – O Retorno da Sorte

Mensagem#8 » 08 Mar 2012, 03:19

A sorte é a entidade do mestre!!
Legal pacas o conto e a aventura. Continuem.

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Raconn
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Re: O Choro de Symbele – O Retorno da Sorte

Mensagem#9 » 10 Mar 2012, 20:43

As escritas em vermelho são as coisas que só o mestre sabe, e não convém naquele momento que os jogadores saibam, são o pano de fundo do que ocorre ao mesmo tempo no jogo. Como quando um halfling do grupo rouba algo, e algum mercador descobre e avisa a algum capanga para seguí-lo e dar-lhe um castigo futuramente, algo do tipo.


Ah entendi. É ainda mais complicado e sinistro o estilo de jogo.
Grupo realmente privilegiado,

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Filho_De_Set
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Re: O Choro de Symbele – O Retorno da Sorte

Mensagem#10 » 10 Mar 2012, 21:44

Cheguei aqui chamado pelo Raconn e achei demais.
A narração é viva e cheia de detalhes de jogo o que nos dá a sensação de que o RPG é mis que um estado de arte.
^_^

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Pedroplanes
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Re: O Choro de Symbele – O Retorno da Sorte

Mensagem#11 » 12 Mar 2012, 00:39

Talvez o texto mais complexo.
Há tantas ranhuras e meandros neste relato que fica meio difícil de entender. Seria legal se os protagonistas destas passagens viessem aqui comentar algo.
Andando e rolando dados.
http://blogdoandarilho.blog.uol.com.br/

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Digimundo
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Re: O Choro de Symbele – O Retorno da Sorte

Mensagem#12 » 12 Mar 2012, 22:45

Putz, texto maneiro demais.
Assim como o primeiro. Tá demais.

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Bozo
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Re: O Choro de Symbele – O Retorno da Sorte

Mensagem#13 » 13 Mar 2012, 01:06

Agora, o que o passado moldara se escondia em novos trajes, crenças, certezas e objetivos. A mão, antes refúgio seguro de mensagens da morte, agora segurava uma moeda. O símbolo da Senhora que habita as terras de Sune e Selûne semeando a sorte em vida seria o novo farol. A bússola, esta seria o destino. A Terra dele.


Um recomeço?
^_^

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Yeti
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Re: O Choro de Symbele – O Retorno da Sorte

Mensagem#14 » 14 Mar 2012, 00:22

Putz que texto complicado e ao mesmo tempo não dá vontade de parar de ler.

O símbolo da Senhora que habita as terras de Sune e Selûne semeando a sorte em vida seria o novo farol


Tymora né?
Ronassic já falou disto.

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Soul-lyryc
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Re: O Choro de Symbele – O Retorno da Sorte

Mensagem#15 » 14 Mar 2012, 23:21

Só para facilitar o entendimento, cabia um índice de referências certo?

:triste:

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