O Último Rei Minotauro

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O Último Rei Minotauro

Mensagem#1 » 27 Set 2010, 04:13

Olhei a parte de contos aqui, tão solitária, e pensei, porque não?

Depois de toda a palhaçada que promovi acho que isso deve ao menos amenizar alguma coisa.

Ou acabar de vez com toda a minha fama de troll, ou não. Lá vai. De todo meu coração, para as pessoas da Spell que adoram essa Tormenta.



O Último Rei Minotauro



O corpo pede descanso. A mente pede para parar.

Mas ele avança, desafiando a si mesmo como há algum tempo se acostumou a fazer.

Passo ante passo, casco após casco.

Há vários dias Goratikis, o grande General Minotauro caminha pelas montanhas confiante porém cheio de dúvidas e questionamentos.

Após sua conquista triunfal, seus aliados, convencidos à duras penas pela sua força o querem como líder de uma nova nação.

Mas apesar de provar à cada um deles que tinham força para se libertar de seus algozes, não julgava-se forte o suficiente para liderá-los.

— Vou às montanhas, para meditar. Aguardem meu retorno e minha decisão.

Repetiam-se em seus pensamentos, os acenos de seus compatriotas há dias de distância. E Goratikis via em seus semblantes os vultos de sua família.

— Não tive a força para salvá-los, mas os vinguei. Cada maldito Orc pagou mil vezes pelo meu sofrimento. Eu provei que sou forte. Eu provei, Tauron! EU PROVEI! — Ele brada, rasgando a garganta em direção ao horizonte sem fim, um magnífico pôr do sol na desolada face da montanha.

O sangue derramado turva suas memórias. Seus filhos, sua mulher, sua vida, um turbilhão de vingança. Mas isso é passado.

Em seu destino de viagem, fatos pretéritos ainda mais imperfeitos e sombrios o assombram.

Porém, incansável ele caminha.

Ao cair da noite, Goratikis atravessa uma densa nuvem de neblina, alcançando um declive cercado pela mata fechada.

Avançara muito nos vales que percorreu por puro instinto, de volta à sua origem nas Montanhas Uivantes, onde o vento jamais para de sibilar por entre as florestas, penhascos, rios e cavernas, terra ainda mal conhecida pelos seus irmãos de raça.

Nem mesmo se lembra conscientemente de como era o caminho.

— Aquelas árvores eram maiores ou fui eu que cresci demais? – Se pergunta, duvidando de seus sentidos.

A escuridão não o impede de prosseguir, de fato o impele a continuar caminhando.

Seus pensamentos vencem o cansaço extremo, guiado pela acurada visão noturna que possui, bem como seu faro.

O odor que o vento impinge em suas narinas não lhe é estranho.

— Mas é muita ousadia sua voltar aqui, seu maldito assassino! — Uma voz ecoa pela mata em sua direção.

— Eu ando por onde quer que meus cascos me levem, quem se opõe à minha passagem que mostre-se! — Goratikis se prepara para atacar, rapidamente empunhando seu pesado machado de duplo gume, já acostumado ao fervor da batalha.

Seus olhos o enganam, mas seu faro não o decepciona. É seu irmão Coikis.

— Veio terminar o que começou, covarde? Eu estou aqui! — Coikis salta de uma árvore, violentamente girando seu machado de lenhador contra seu irmão, que apara o golpe e sente o familiar peso da velha arma de seu pai.

Goratikis sente o cansaço pesar ainda mais em seu corpo, e mal consegue se defender, girando seu machado para se defender e se afastando em trotes curtos.

Coikis espuma de raiva, seus olhos brilham como rubis na escuridão da mata, cada golpe desviado pelo seu irmão o impele a golpear mais forte, seus músculos ardem em fúria, o ódio lhe consome a alma a largos goles.

Se valendo de sua experiência em luta, Goratikis tenta desarmá-lo, puxando habilmente a lâmina de seu irmão com sua própria arma, usando a fúria insana de Coikis a seu favor.

Um passo à frente e o furioso atacante é desarmado, porém o cansaço faz com que Goratikis erre a manobra e deixe sua arma escorregar, restando a seu dispor a forma mais natural de combate que um minotauro pode usar.

Goratikis segura os braços de seu irmão e desfere incontáveis cabeçadas, testa contra testa, até que ambos perdem as forças e caem sentados, face à face, exaustos, bufando.

— Eu não quero ver mais sangue de meu sangue derramado em vão, meu irmão... Mas não desistirei de lutar para me fazer ouvir, entendeu? — Goratikis gritou novamente, zonzo porém lúcido, se preparando para retornar à carga caso seu irmão se opusesse.

— Não me importo de derramar seu sangue imundo, você não tem o direito de me considerar seu irmão há muito tempo, esperei toda a minha vida pelo dia em que me vingaria... — Coikis se levanta, seus olhos vermelhos e esbugalhados sobressaindo na neblina.

— Coikis, a decisão não é sua, afaste-se — Uma voz feminina se aproxima por detrás do enraivecido minotauro.

— Eu sou o mais velho de nossa aldeia, Eu TENHO esse direito! — O jovem minotauro cerra os punhos, procurando pelo seu machado.

Eram inegáveis os sinais de sua juventude. Apesar de ter o corpo tão musculoso, mesma altura e parecer tão feroz quanto seu irmão, seus chifres, símbolos de sua masculinidade, eram por meio casco menores, apontados aos céus.

— Tarínia? É você? — Ele duvida do que ouve, sua mente atordoada ainda mais com a vaga lembrança de sua tenra juventude na aldeia.

— Eu reconheço você Goratikis, diga a que veio e talvez eu seja piedosa e não derrame seu sangue maldito em nossa terra sagrada. — A voz, agora um vulto, se move pelos arbustos por entre os grossos troncos, se revelando uma grande sombra através da neblina.

— Eu vim para pedir auxílio à Grande Zulana. — Goratikis focou-se na silhueta que se aproximava pelo flanco direito de Coikis.

O poderoso minotauro mal podia acreditar no que via, a menina magrela e feiosa que vivia chorando pelos cantos desabrochou numa imponente fêmea minotaura genuína e pura, tranças longas adornando sua face, escorrendo pelos seus chifres cônicos e sinuosos como uma tiara, circundando seus cabelos lisos que se perfilavam como um manto sobre seus ombros.

Como sua própria mãe, cujo rosto ele esquecera há décadas.

— Veio para terminar o que começou? Ou veio implorar perdão? — Tarínia carrega uma rústica flecha em um enorme arco longo com seus braços fortes e grossos, traço marcante das fêmeas mais notáveis da raça.

— Não me ameace menina, eu não vim para implorar, eu vim em busca de conselhos, mas se é sangue que você quer isso pode ser arranjado facilmente — Goratikis diz em tom de desprezo, cruzando os braços e levantando o queixo.

— Onde está Tássila? — Tarínia retesa seus músculos, forçando ainda mais seu arco e flecha, gritando com um ódio incontido.

Coikis se acalma por um instante com curiosidade, enquanto seu irmão mostra-se fraco pela segunda vez em toda sua vida, por conta da lembrança de sua amada.

Ele que nunca se dobrou ao medo ou aos ferimentos mais profundos em sua carne via dilacerada sua alma de guerreiro pela fraqueza do tempo em que era tão somente um pacífico fazendeiro.

— Ela... morreu. Nossas crianças, eles... Eles as mataram... nossos filhos... Eu matei a todos... Todos eles pagaram pelo sangue de minha família — Goratikis tremia de raiva, balbuciando nervosamente.

Esta foi a última vez em que ele verteu lágrimas por toda sua vida.

— O destino te apunhalou, ora essa. O sangue que você derramou no passado se vingou, cobrou seu preço em seu futuro — Coikis observa as lágrimas se desfazendo no pêlo castanho da face de seu irmão, de alguma forma apascentando o ódio que lhe consumia em favor da pena que sentiu pelo sofrimento de seu irmão.

— Suas lágrimas me convenceram, nós te ajudaremos. — Tarínia desarma rapidamente seu arco e guarda sua flecha, amparando Goratikis, que tenta disfarçar os olhos rubros de lágrimas, fitando o olhar penoso de Coikis.

— Não há castigo mais cruel que viver com a culpa de não ter protegido sua família. Só Zulana poderá lhe consolar, com a bênção da Divina Serpente. — Diz a fêmea, enquanto Coikis recolhe seu próprio machado e o acomoda em uma tira de couro que o prende às suas costas.

Coikis então devolve a seu irmão seu machado de duplo gume, lembrando Goratikis das visões em sonhos onde Tauron, o touro de cabeça flamejante lhe aconselhava, sempre brandindo um imponente machado dourado.

— Sim, eu rezo para que ela tenha respostas. — Sussurrou Goratikis, lado a lado com seus irmãos minotauros, ainda dolorido e exausto, de corpo e alma.

Por mais uma hora eles caminharam, nesse ponto Goratikis se rendeu ao cansaço e teve de ser amparado pelo seu irmão, seu machado levado por Tarínia pelo restante do caminho até a aldeia.

O general continuou caminhando, de cabeça baixa, quase que em torpor, se desligando do mundo à sua volta, perdido na noite nebulosa que envolvia o trio.

Na manhã seguinte, acordou em uma tenda, deitado em uma esteira de palha e aquecido por um cobertor de lã.

— Parece um sonho, a tenda onde nasci... Será que... — O general se levantou, sentindo o frio pungente dos ventos espalhando seus pêlos e congelando suas narinas quando desprendeu o pequeno osso que segurava a tira de couro que servia de fechadura.

Observou ao seu redor a aldeia, ainda intocada pelo tempo. As dezenas de tendas cobriam o vale que era cortado por um rio, em suas margens florescia seu povo, sua raiz, na planície do vale cercado pelas árvores milenares e pelas montanhas, ainda maiores do que sua memória lhe permitia lembrar, imponentes e intransponíveis.

Ao longe, os picos que inspiravam seu povo a permanecer naquele local, os Chifres da Deusa, ele se lembrava bem. Eternas montanhas geladas de onde vinha o rio, que simbolizava a proteção da divindade, bem como a vida que eles desfrutavam.

Crianças corriam pelo gramado por dentre as rústicas tendas de couro, brincando de lutar com galhos e rolando na grama às margens do rio enquanto os pescadores desciam pela margem sinuosa em direção ao Lago das Almas, que permanecia fértil o ano todo apesar da forte corrente descendo das montanhas.

— Venha, vamos logo, não vamos perder tempo. — Coikis surpreende seu irmão vagando o olhar pelas belezas esquecidas. — O que você está esperando?

— Onde está meu machado? E meus mantimentos? — Perguntou o minotauro, encarando os olhos castanhos de seu irmão.

— Seus mantimentos estavam estragados, fediam muito, nem abrimos aquele saco imundo, jogamos longe para não atrair abutres famintos, seu machado está seguro, ele chamaria a atenção por demais dos aldeões, arma bastante exótica — Coikis disse, ajeitando sua enfeitada tanga.

— Vamos ver Zulana agora? — Goratikis notou que suas vestes foram trocadas pelos trajes da tribo, tangas de couro curtido e grosso, atadas por um cinto ornamentado com sementes costuradas e uma fivela de ferro. — Por quanto tempo eu dormi?

— Um dia e duas noites inteiras. Vamos logo! Ela raramente vê pessoas, mas insistiu em ver você, eu devo respeitar a vontade da anciã. — Coikis segue apressado pelo caminho, evitando olhares das esposas e crianças dos pescadores e caçadores que já haviam partido para buscar o sustento de suas famílias.

— A aldeia cresceu muito, nem reconheço mais as tendas, todo esse povo se multiplicou tão rápido... — Pensa o general, observando de relance pelas frestas das portas das tendas as fêmeas curiosas, algumas amamentando, outras escovando o pêlo e vestindo seus rebentos antevendo o frio.

Ele se sentia um jovem novamente. Rebelde e desrespeitoso, fuçando onde não deveria.

— Entre, a anciã está lhe esperando. — Coikis rapidamente fecha a alta tenda quando seu irmão a adentra.

Pelo teto gasto e envelhecido raios de sol perfilam o ambiente, delineando potes, vasos, couros, roupas e velhos penduricalhos de comemorações de eras passadas.

A velha minotaura parecia um fantasma, uma montanha que ofegava sentada em uma cadeira escavada de um grosso tronco, um trono rústico para a anciã recostar seu imenso corpo, quase duas vezes mais alto que os irmãos minotauros, porém encurvada e enfraquecida na túnica de algodão que lhe cobria, quase como uma tenda.

Seus chifres em uma contorcida e labiríntica espiral em suas têmporas, eram encobertos fracamente pela sua densa cabeleira prateada, com ocasionais pêlos negros persistindo em aparecer.

Não se lhe viam os olhos, encobertos pelos seus cabelos esparsos, mas suas narinas atiçaram-lhe a lembrança.

— Vax! Você está vivo! Pela graça da Divina Serpente, você voltou! — Atônita, a velha meneou a cabeça, procurando a fonte do odor.

Seus olhos de pupilas leitosas e minguadas só enxergavam vultos.

— Mãe, este não é Vax, é Goratikis. — Respondeu Coikis, vigiando a porta da tenda logo atrás de seu irmão.

O semblante da anciã se entristeceu enormemente.

— Eu não o vejo há tanto tempo, meu filho. Sinto que você alcançou finalmente a estatura de seu pai. Veio para tomar o lugar dele? — Zulana fechou os olhos, aguçando seus sentidos para não se enganar novamente.

— Eu vim para pedir perdão pelo que fiz. — O filho se lembra de que é o General, o peso do poder lhe pesa novamente nos ombros largos.

— Porque? Não lhe basta ser tão grande quanto seu pai, como eu posso sentir? Não preciso de meus olhos para ver isso. Você não é mais a sombra de Vax. Coikis teve de assumir seu papel, desde que ele foi embora. — A anciã lentamente pega um cachimbo, o acendendo com um estalar de seus dedos, de unhas rijas e escurecidas como cascos.

— Ele viveu? Mas eu vi, ele parando de respirar — O minotauro duvida, se aproximando da anciã.

— Sim, ele sobreviveu ao desafio que lhe propôs. Você venceu, e fugiu com Tássila para evitar a fúria dos seus irmãos. — Ela inspira lentamente, ofegando para atiçar a brasa do fumo.

— Mas eu tenho mais a contar, eu fiz coisas terríveis e honradas, e preciso de sua força para me ajudar a decidir. — Ele observa a fumaça se desprender do fumo, e ser expelida pelas narinas de sua mãe.

— Minha época de decisões já se acabou, eu estou apenas aguardando o chamado da Deusa quando meu tempo se findar. — Ela retruca, indiferente.

— Eu vi a real face de Tauron, ele é a verdadeira face da Serpente, ele me deu forças pra vingar minha família e libertar a meus irmãos minotauros das planícies do jugo de uma raça de malditos seres que se chamam de orcs.

— Então é verdade, há mesmo mais de nós lá embaixo... Eu suspeitava disso há tempos. Esqueceram-se de sua força, de sua deusa... E você os levou à vitória, meu filho? — Zulana soprou em direção ao minotauro, circundando seu rosto em fumaça.

— Sim. Eles serão uma grande nação, são fortes e corajosos, apesar de não saberem disso. — Ele diz, orgulhoso de seus atos.

— Eles tem fêmeas? Eu sempre ouvi que alguns se perdiam e se desgarravam de nós, ou fugiam e não voltavam mais. — A mãe perguntava ao filho, a silhueta em seu campo de visão lhe relembrando seu amado marido.

— Os orcs os dominaram de tal forma que as fêmeas parecem ter desaparecido, eles se acasalam com humanos, seres fracos, sem chifres, sem pêlos, são muito feios e magrelos, mãe. É uma vergonha o que fizeram com meus irmãos. — Goratikis nervosamente explica-se, pausando entre as inspirações e expirações de Zulana.

Soltando lentamente a respiração, a anciã meneia a cabeça, refletindo e afastando as lembranças do passado longínquo por um instante.

— A Divina Serpente os amaldiçoou por terem deixado as montanhas. Serão dependentes de uma raça fraca para todas suas gerações. Eu ouvi o vento sibilar a anos atrás em meus sonhos, a ascensão do touro furioso. Eu vejo o semblante dele em você, Goratikis meu filho. — Ela diz em tom grave e pesaroso.

— Mas... Nossa aldeia floresce, podemos cobrir as planícies com nosso povo unido! Eu posso unir a nós todos em uma grande nação! — O General bradou triunfante, erguendo os braços como se quisesse abraçar o mundo inteiro.

Coikis, que estava desatento à conversa, eriça suas orelhas ao ouvir seu irmão.

— Eles não irão ouvir ao desgarrado filho de um desaparecido nem à uma velha que está para morrer. Coikis se unirá a Tarínia, e eles guiarão este povo. Você deve desafiá-lo se for o seu desejo sincero. — A anciã se levanta lentamente, para pegar mais fumo para seu cachimbo, pendurado em uma pequena bolsa num cabide de chão feito de madeira, repleto de amuletos e enfeites envelhecidos e empoeirados.

— Não, eu não desejo derramar sangue de meu sangue novamente, mas para onde rumou meu pai? — O jovem pergunta, cheio de esperança.

— A ferida que você causou demorou a curar, e eu acredito que meu amado Vax enlouqueceu ao realizar que você era mais forte. Quando se recuperou, partiu à sua procura disposto a te matar. — Ela diz entre um pito e outro, apreciando o sabor do fumo.

— Mas ele nunca mais voltou. Só você apareceu, com um machado e cheiro de carne podre. Só imaginei o pior. — Coikis põe sua mão direita no ombro esquerdo de Goratikis, certo da tristeza que ele também sentia.

— Por isso você me atacou, você não sabia? — O general pergunta.

— Eu tive certeza de que você tinha assassinado nosso pai, mas, esqueça isso, eu não quero nada que você possa oferecer. Sou feliz aqui, e não tenho curiosidade de me aventurar fora do vale. — Coikis diz, deixando a tenda.

O General, o jovem e o filho Goratikis repensam os fatos. A sua família já não era mais essa; há tempos ele já não era mais jovem, e nem filho. Vingar seus entes queridos não o trouxe paz, mas ainda havia uma família que necessitava dele. A de seus semelhantes.

Zulana interrompe os pensamentos do General, pigarreando e tossindo, deixando o cachimbo cair.

— Deixa que eu pego, mãe.

Por um instante ele se viu jovem, bem como a sua mãe, feliz e embalando seu irmão ainda um recém-nascido.

— Deve ser alguma coisa nesse fumo, alguma mágica que mamãe fez, pensou o General, devolvendo o cachimbo à anciã.

— Escute Goratikis, você dará origem a uma grande nação, sim, eu posso ver claramente. Você será um governante justo, e trará prosperidade aos seus. — A anciã diz, esforçando o cansado rosto em um sorriso sincero.

— Eu acredito, eu aceito meu destino. — O General se enche de confiança novamente.

— Vá com minha bênção, e que a Divina Serpente lhe guie pelos caminhos tortuosos que você irá encontrar. Peço que me deixe só agora, meu filho. Meu corpo me pesa muito, e não quero que você sinta pena de mim.

— Sim, Zulana. Agradeço suas palavras e sua bênção. — Goratikis deixa a tenda lentamente, guardando com carinho na memória a imagem de sua genitora.

Ao se aproximar do rio, para observar as crianças brincando, ele vê ao longe seu irmão trazendo uma fêmea pelo braço.

— Irmão, você ainda se lembra de Valquíria? — Coikis aponta para a minotaura de olhos pretos e estatura baixa, uma cabeça abaixo dos machos ao seu redor.

A fêmea madura, de cabelos negros como a noite, chifres curtos e virtudes modestas parecia apreensiva, impressionada pela presença de machos tão poderosos.

— Sim, a mãe de Tarínia e Tássila. Lhe devo explicações, eu gostaria de conversar em particular. — Goratikis diz, fitando a encabulada fêmea.

— Coikis me contou, uma fatalidade, mas eu sei que ela foi feliz, teve seu amor por um bom tempo. Eu não o culpo por roubar o coração dela, por vezes invejei sua mãe; Vamos tomar um chá e comer pães, há muito que conversarmos, e tenho certeza que tens fome e sede, após tanto tempo descansando — Diz Valquíria, sorrindo e apontando sua tenda.

Durante uma semana, sete dias e sete noites, Goratikis esteve dentre os seus, contando-lhes sobre o que vivera nas planícies e a desgraça que se acometeu aos seus irmãos, bem como seus planos ingênuos de um império onde os minotauros reinassem por todas as terras.

Ao redor da fogueira, numa noite onde os caçadores desejavam comemorar a fartura que a Deusa proveu, todos comentavam a presença do herdeiro de Vax e todas as conseqüências advindas desse fato.

— Goratikis, quer dizer que eles acasalam com essas criaturas estranhas, sem chifres nem pêlo, e ainda assim nascem minotauros?

— Sim, de fato as fêmeas nascem iguais às mães, os machos nascem minotauros.

— Mas como é possível? Eles estão acasalando com bestas selvagens! Isso é um absurdo! É como se eu casasse com um bode e tivesse filhos com cabeça de bodes!

— Foram forçados, eu sei que é terrível mas eles se acostumaram a isso, irmão. É uma vergonha.

— Alguém que tocou num animal, mesmo que ele ande de pé e saiba falar não merece nosso respeito. Nunca cederia a mão de uma filha minha para tais bestas.

— Concordo, mas eles merecem nossa pena, estão amaldiçoados, pobres irmãos.

— Algum dia você vai restaurar a honra deles, Goratikis?

— Essa decisão não cabe a mim, mas a Coikis, meu irmão e herdeiro da liderança desta aldeia.

— Algum dia, irmão, ainda é cedo para eu decidir por todos.

— Vamos comemorar o retorno de um irmão minotauro, pode esse ser um sinal dos novos tempos, temos aqui dois líderes!

Todos brindaram com seus canecos de madeira cheios de boa e forte breja, feita pelos plantadores das terras altas na foz do rio.

Goratikis teve tempo de visitar os poucos fazendeiros e pequenos criadores de animais que participavam das festas bimestrais, permutando seus produtos, desde carne e cereais, tecidos, artigos de madeira, couro e osso, até a eventual vinda do ermitão ferreiro, aprendiz de um lendário anão com suas facas, machados, martelos, agulhas e anzóis de metal, sua esposa trazendo colares de arame com motivos da natureza, fivelas, botões e presilhas.

Claro, nestas festas as meninas eram cortejadas pelos jovens machos sob os olhares atentos de seus pais.

Elas cantavam ao som da alegre música dos pescadores e caçadores ao redor da fogueira com seus instrumentos artesanais, espantando o frio das noites enquanto o vento sussurrava pela floresta.

O general apreciava a complexidade das relações do pequeno e escondido vale. Seu império seria muitas vezes maior que este vilarejo.

Numa manhã, o sol venceu por algumas horas a densa neblina, e Goratikis sentiu saudade de seus irmãos que não compartilhavam desta felicidade ingênua.

Se dirigiu à tenda de seu irmão, que já vivia com Tarínia ao lado da tenda de Zulana há um mês e duas semanas, e o chamou para conversar.

— Irmão, sinto que minha hora de partir chegou. Sou muito grato por todos terem me recebido tão bem, mas devo retornar aos meus irmãos desafortunados. — O general diz, fixo nos olhos castanhos de Coikis, tentando não espiar na tenda.

— Fique mais um dia, Tarínia e eu nos casaremos e quero que você participe. — Coikis nota seu irmão levemente encabulado e rapidamente sai da tenda, a fechando discretamente.

— Mas ainda faltam duas semanas para a próxima festa da colheita, não? — Goratikis responde mais aliviado.

— Será uma festa particular de nossa família. Você nunca viu um casamento antes, não é? — Coikis sorri, apontando o óbvio.

— Acho que não, é verdade.

— Será rápido, eu prometo. — Coikis lhe dá dois tapinhas no ombro.

— Não há porque se apressar por minha causa.

Os preparativos para a festa tomaram poucas horas da manhã do dia seguinte. Mesas com frutas, bolos e pães doces, bem como carnes preparadas na noite anterior, temperadas com raiz forte e ervas aromáticas, bebidas para as crianças e dois barris de breja ao natural para os adultos, tudo como o costume mandava.

Todos os minotauros adultos e suas esposas se sentaram em troncos ao redor do local onde era costume se acender a grande fogueira das festividades.

Goratikis acompanhou Zulana até um dos troncos, mas a anciã preferiu continuar de pé, braços cruzados por sobre seu abdômen.

Sob o olhar atento de todos, Coikis, usando sua tanga mais enfeitada e um colar de arame com contas e sementes, saiu da companhia de sua mãe e irmão com as mãos em concha, como se escondesse algo, em direção à sua noiva, que lentamente saiu da companhia de seus pais e o esperava sobre as cinzas da fogueira do dia anterior.

Tarínia usava um vestido longo, sem mangas, de algodão branco com uma tiara de flores selvagens em sua cabeça. Suas tranças esvoaçavam com o vento.

Suas virtudes femininas bem como seu físico musculoso a encabulava, mas desde que se tornou caçadora compartilha da rotina e dieta natural deles, se tornou forte como seu próprio pai, afastando muitos pretendentes.

Aquele era o mesmo vestido que sua mãe usou em seu casamento, e portanto mal lhe escondia os fartos e voluptuosos dotes. Ela também escondia algo em suas mãos.

Como tremia o jovem casal de fronte a todos!

Coikis mostrou o que estava escondendo, uma maçã, que ofereceu à Tarínia orgulhosamente.

Ela então mostrou o que escondia, uma pequena adaga, com a qual cortou a mais longa trança que tinha em sua cabeça, soltando o cabelo castanho, e as trocou pela maçã, que mordeu com vontade, certamente nervosa.

Coikis colocou a trança e a adaga do lado direito de seu cinto, retirando então o colar que usava, o colocando em Tarínia, que ruborizada segurava a maçã em sua boca.

Ele retirou-lhe a tiara de flores e a colocou em si, mordendo a fruta em seguida.

Ambos nervosamente mordiscaram a fruta, se unindo num abraço até que finalmente os lábios se tocaram e as línguas se entrelaçaram, num complicado beijo onde ambos tentavam não se engasgar, se consagrando nos laços da união abençoada pela Deusa e testemunhada pelos seus semelhantes.

Todos batiam palmas e gargalhavam, as fêmeas choravam e se emocionavam com a cena, as poucas que ficaram ocupadas com as crianças se encheram de alegria, algumas de inveja, mas enfim estava consumado.

Goratikis ficou orgulhoso de seu irmão; Tarínia estava muito emocionada, quase desmaiando nos braços de Coikis.

— Quando eu me casei com seu pai, não tínhamos maçãs, eu tive de engolir um pão com calda de cereja, era um pão enorme, mas seu pai tinha a boca mais suculenta de toda a tribo. — Zulana deixou uma lágrima escorrer, mas ninguém a conseguiria ver em seu denso pêlo branco.

— Parece até que estou sentindo o cheiro dele novamente... Meu filho, você tem se banhado? — A anciã perguntou discretamente.

— Mas, esse cheiro não é meu, é... Meu pai!? O vento traz o seu odor, mas está... terrível, parece um morto-vivo! — O General se alarmou, avistando ao longe as árvores se remexendo de forma bastante fora do normal.

Os caçadores perceberam o cheiro, e ao avistar Goratikis correndo em direção à própria tenda, deixaram a cerimônia o quanto antes para se munirem de suas armas.

Coikis ficou confuso por um instante ao terminar o beijo e ver tanto alvoroço, mas Tarínia sabia exatamente a causa.

— Foi esse cheiro, esse mesmo rastro... Ele voltou, Coikis, algo o atrasou mas ele encontrou nossa aldeia... Eu vou pegar meu arco.

— Você quer dizer que é mesmo...

— Vax ainda persegue sua vingança... Temos de ajudar Goratikis.

— Talvez ele nem precise de ajuda...

— Não seja tolo! Vamos!

Tarínia puxou seu esposo pela mão, ignorando o costume do marido carregar a mulher até a tenda, dilacerando o vestido justo em vários pontos bastante vexantes, mas não era hora de se envergonhar.

Goratikis, de machado em punho, avançava em direção ao cheiro o mais rápido que seus cascos o permitiam no seio da floresta que delimitava a saída da aldeia.

O cheiro cada vez mais pungente de suor e morte era seu guia por entre os galhos, troncos e arbustos do milenar bosque.

Ao longe, o hálito pútrido e sua saliva escorrendo de alegria ao captar o cheiro da festa o motivava a continuar demolindo a floresta, por onde seu corpo não conseguia passar.

Já havia aberto uma clareira empurrando árvores em seu caminho, faltava pouco para chegar à aldeia.

Distância essa que Goratikis percorreu rapidamente, enfim encontrando o maior minotauro que ele jamais viu, mesmo nos mais delirantes contos de monstros de seus irmãos de armas.

Tomado por feridas horrendas e vermes que se sacolejavam fugindo do frio correndo por baixo da pele e de suas entranhas, o gigantesco minotauro era um misto de zumbi e gigante, atraindo moscas e deixando um rastro de insetos rastejantes e árvores destroçadas em seu caminho.

Seus músculos superdesenvolvidos haviam rompido a sua pele em vários pontos, bem como seu torso e abdômen possuíam diversos rombos pelos quais os vermes caíam quando ele se movia para arrancar mais uma árvore de seu caminho.

Só seu rosto, sua cabeça e chifres permaneceram intocados. Era Vax, o pai de Goratikis, sem sombra de dúvida.

Medindo o dobro da altura de Goratikis, quase ultrapassando a copa das árvores, dotado de uma força bestial, demoníaca, sua carne apodrecendo, costelas perfurando a pele mostrando os enormes músculos presos à elas com fortes tendões, inexplicavelmente ele permanece de pé.

Ainda perseguindo sua vingança, ele sorri confiante quando vê seu filho mais uma vez.

Ele permanece em silêncio enquanto o General se aproxima, certo de que não é seu pai, e sim alguma coisa parecida com ele, que possuiu seu corpo e mente e o seguiu desde muito longe.

Sentindo a fúria da batalha preencher suas veias, seu machado parecia tremer quando ele usou toda sua força para golpear a perna do monstro.

Ao invés de sentir o golpe, ele ria, enquanto a enorme ferida derramava bile sobre a lâmina.

Goratikis girou e golpeou novamente, aumentando o estrago na perna do inimigo, jorrando fluidos imundos e vermes, enquanto o gigante lentamente apanhava uma árvore caída com seu braço esquerdo, girando e atingindo o general em cheio.

Vax o esfregou pela clareira com a clava improvisada como uma colher num prato de sopa.

Satisfeito com o dano que causou, o gigante ergue a árvore sobre sua cabeça para um golpe fatal em seu alvo caído no chão.

Goratikis já enfrentou gigantes escravos de orcs antes, e este não seria diferente. Eles sempre são lentos e fáceis de acertar, mas é sempre necessário atingir seus pontos fracos, para derrubá-los como árvores.

— Quanto maior, mais forte será a queda — Pensou, saltando para escapar do ataque que fez a terra tremer.

As feridas na perna de Vax o incomodam quando ele tenta se virar para atingir o general, que corre para retomar sua arma, e ele observa sua perna ferida.

Num instante, ela se regenera, a bile fétida e os vermes gordos e irrequietos reatando ossos e músculos a uma velocidade impressionante, a tal ponto que se podia ouvi-los gritando enquanto a bile os usava para regenerar a imensa perna.

Quando Vax se vira para atacar novamente, Goratikis decepa seu antebraço esquerdo, golpeando com tal força que o prende na coxa do gigante, quebrando o osso e causando uma queda involuntária.

Vax não se surpreende, e sorrindo remove Goratikis de si com um tapa fortíssimo com as costas de sua mão bem no meio da cara do general, o atirando de costas em uma árvore próxima.

Goratikis cai de pé, esfregando as costas na árvore que o aparou. Vax apanha seu antebraço e o recoloca no lugar, ao que os vermes que infestam seus carnes novamente encharcados pela bile o regeneram, e ele sente seu braço e mão responderem a si mais uma vez.

Impulsionado por uma fúria cada vez maior, o General avança bufando em direção ao seu inimigo, disposto a derrubá-lo.

Ele força seus músculos ao extremo, acertando uma cabeçada no peito de Vax, que desequilibrado cai de costas no chão, cuspindo bile pelos cantos da boca.

Goratikis rapidamente golpeia a face do gigante, deformando sua face, e curiosamente ele sangra vermelho vivo, sem perder o sorriso.

— Meu irmão, cuidado! — Gritou Coikis, que chegava à clareira devastada munido de seu próprio machado, o legado de Vax, mesmo sendo agora um monstro irreconhecível.

O general antecipou o golpe, não sem algum dano; Goratikis desviou habilmente da machadada, mas perdeu seu chifre esquerdo com o golpe.

Nenhuma surpresa, ele já viu isto acontecer antes. Calmamente ele saltou sobre o braço do gigante o imobilizando e recuperou seu machado, desviando de outro golpe e girando para cortar-lhe a perna direita de uma só vez na altura da coxa, derrubando o gigante que se sacudia desesperado.

Coikis decidiu aproveitar a oportunidade e adentrou o combate desferindo um golpe no ombro direito do gigante, que finalmente urrou de dor, se separando de seu braço mais pelo desespero do que pela destreza do minotauro.

— Que coisa horrível! Como vamos acabar com o sofrimento dele?

— Precisamos achar o rei verme e matá-lo antes que fuja para outro corpo, ou teremos problemas ainda maiores — O general diz, curto e grosso, bufando e girando seu machado para atingir o que sobrou da outra perna, sendo impedido bruscamente pelo cadáver que se debatia, tentando unir suas partes novamente.

Vax, sentindo a morte definitiva cada vez mais próxima, vendo suas forças se esvaírem, urra ferozmente, e de sua boca sai um enxame de moscas que pega de surpresa os irmãos.

Elas não conseguem fazer muito mais que atrapalhá-los tempo o bastante para que Vax reúna suas partes.

Inspirando profundamente, o amaldiçoado minotauro comanda as moscas de volta às suas narinas.

— MAIS... FORRRTE... — Vax urra alto, ecoando seu ódio pelo vale como uma fera indomável, de pé, flexionando seus braços titânicos.

Os caçadores da aldeia o atacam, atirando uma nuvem de lanças e machados em seus membros e torso.

Vax sorri novamente, sem um pedaço do queixo, dilacerado pelas armas dependuradas em seu corpo. Seus olhos brilham e as pupilas se dilatam, se enchendo de um terrível tom negro.

Os caçadores preparam-se para laçá-lo como o fazem com as bestas selvagens, ao que o corpo de Vax se expande, uma aura negra o envolve, expulsando as armas enterradas em suas vísceras como frutas maduras caindo do pé, se amontoando ao seu redor.

Em lugar de vermes se debatendo e bile escorrendo, seus músculos dilaceram o que restou de sua pele, aumentando ainda mais conforme seus ossos se dilatam.

Os irmãos observam a agonia de seu pai, cujo sorriso disforme parece se deliciar com o nojo e repulsa que sua transformação causa em seus inimigos.

Longas garras protuberam de seus dedos, bem como grandes espinhos crescem de seus ossos e traspassam sua carne, apontando para os céus como chifres ensanguentados por todo seu corpo, tornando sua figura ainda mais demoníaca.

— Temos de acabar logo com isso, maldição! — Coikis se amedronta por um instante, fitando os olhos de Vax.

— Não olhe nos olhos dele! Vamos! Temos de cortar a cabeça, o verme deve estar lá! Vê como ele sorri? Ele não sente mais dor! Vamos juntos irmão! Só temos uma chance!

Coikis se enche de confiança, acompanhando Goratikis em seu ataque furioso.

Ambos golpeiam a perna direita de Vax, destruindo seu joelho como a uma árvore podre, e o gigante cai novamente. Usando seus imensos braços espinhosos e garras, ele fere ambos ao mesmo tempo, destroçando o longo cabo de madeira do machado de Goratikis e desnorteando Coikis, arranhando seus torsos superficialmente.

Vendo o seu filho mais novo desamparado, Vax levanta seu braço novamente para golpeá-lo enquanto ele está caído.

Goratikis não perde a oportunidade e salta sobre as costas do gigante, traspassando seu crânio com uma lança, empurrando-a até seus punhos tocarem a cabeça de Vax.

Ele então aproveita a confusão do monstro para puxar sua cabeça tentando quebrar seu pescoço, apesar dos poderosos músculos que a sustentam o sacudirem como a um sapo picado por um escorpião, ainda tendo de evitar os espinhos que delineiam a coluna do amaldiçoado minotauro.

— Ta na hora de morrer, maldito! Devia ter continuado morto quando provei que era mais forte que você! — O General gritou, puxando os chifres malditos de seu pai, que se contorcia tentando se livrar dele.

Ao longe, Tarínia observa a cena estarrecida, porém compenetrada a ajudar seu marido a se salvar de alguma forma. Arco preparado e flecha carregada, alvo na mira.

Não era como atingir um animal indefeso, ou mesmo uma fera selvagem. Um erro e ela poderia matar os dois. Mas que mal haveria? Ela só precisava de seu amado vivo. E como ser responsável pela morte deles pelo resto da vida, como Goratikis?

A anciã, sem fôlego de ter se apressado em chegar na floresta, tocou em seu ombro.

— Tarínia, use isto, ele não morrerá se não for atingido em seu ponto vital — Zulana entregou-lhe uma velha trança de cabelos ruivos, frágeis e quebradiços.

— Mas como eu uso isso? — A fêmea, ainda em seu vestido de noiva, desarmou a flecha e segurou firmemente a trança.

— Use o seu arco, aponte e dispare, fixe-se no seu alvo... Acabe com o sofrimento dele, eu te imploro, — Zulana desfaleceu, tombando no chão.

— Mas como? — Tarínia olhou incrédula para seu arco, e vendo os caçadores tentando prender o monstro selvagem, com Goratikis garroteando-o com sua agilidade e força incríveis, teve que decidir rapidamente.

Ao tendão de seu arco longo, ela uniu a trança de Zulana, e usando toda sua força e determinação, tensionou-o, apontou em direção de Vax e concentrou-se como nunca em acertar sua imaginária flecha em seu alvo, a cabeça.

Goratikis já tinha quebrado o pescoço de Vax, mas mesmo assim a carne amaldiçoada permanecia segurando o crânio, além do corpo ter sido imobilizado pelos caçadores que habilmente laçaram os braços do monstro.

Num esforço ainda maior para decapitar seu pai, o General arrancou seus chifres, surpreso acabou caindo de costas no chão.

Coikis, recuperado do ataque que sofreu, instantaneamente ao se levantar ergue seu machado e o enterra na testa de Vax, que já sangrava o fluido negro que enchia seus olhos.

Ao soltar o tendão de seu arco, Tarínia libertou um turbilhão de mísseis mágicos, que brilhando como vagalumes gigantes se espalharam em várias direções à sua frente rapidamente cercando o alvo imaginário, explodindo em vários impactos sucessivos com um brilho mais claro que o dia, acabando por fim com a ameaça, extinguindo o verme maldito que se instalou no crânio de Vax.

O corpo revolto do minotauro gigante lentamente parou, cedendo à derrota e deixando a morte lhe consumir.

Seus membros inertes e torso descomunal explodiram em fogo selvagem como toras secas em brasa, alertando os que o rodeavam a se afastar.

Em poucos minutos só restavam cinzas e o crânio partido e descornado de Vax no meio da destruição que ele causou.

— Rápido, tragam vasos para as cinzas não se espalharem pelo vale! — Zulana gritou para os caçadores confusos enquanto examinavam a clareira que o monstro havia aberto, se ajoelhando vagarosamente, sendo amparada por Tarínia.

A esposa de um caçador que observava ao longe a batalha ouviu a anciã e correu para a aldeia, atendendo ao seu pedido.

Em pouco mais de uma hora, todas as cinzas dos ossos, vermes calcinados e os chifres de Vax estavam reunidos em vários jarros de barro, tendo a anciã ordenado que fossem jogados todos o mais rápido possível no fundo do Lago das Almas.

Era o costume usado com todos os restos mortais dos falecidos da aldeia, para que os espíritos de seus entes pudessem ser purificados e a aldeia permanecesse em paz.

As armas dos caçadores, os machados de Coikis e Goratikis tiveram o mesmo fim. Tendo sido maculadas pelo fogo amaldiçoado, a bile fétida e a sede da vingança mal sucedida de Vax, por bem se livraram de todas elas.

Naquele mesmo dia, ao cair da tarde pouco antes do pôr do sol, já tinha sido feito todo o apressado ritual, e mais uma noite a aldeia teve paz.

Um grande prejuízo sem dúvida, mas inevitável. Aos poucos os caçadores teriam de repor suas armas, mas por algum tempo caçariam com lanças de pontas de madeira ou teriam de aprender a pescar.

A única exceção foi o chifre esquerdo de Goratikis, que foi resgatado intacto, sem sinais de queimadura ou mesmo o cheiro insuportável da bile.

Semanas depois, na festa da colheita, muitos se surpreenderam com a história, mas foram solidários e comemoraram a união de Tarínia e Coikis alegremente.

Em poucos dias, as feridas se cicatrizaram, a rotina voltou ao normal e Goratikis deu o seu adeus a seu irmão e mãe, tomando o caminho de volta à seus compatriotas pouco depois da festa do ano novo, levando como recordação um fino machado de gume duplo, presente encomendado por Coikis ao ermitão ferreiro pela bravura que demonstrou ao defender a todos, sem dúvida digno da aldeia e não mais um filho de um desgarrado.

— Eu não contarei a ninguém sobre o que aconteceu aqui, mas quando quiser visitar meu, não, nosso reino ficarei muito feliz, unindo nosso povo sob um só céu novamente, irmão. Você tem em meu chifre quebrado a sua chave, afinal você é o líder agora. — Goratikis diz, firme e convicto de que está deixando sua aldeia em boas mãos.

— Espero te encontrar vivo para que seu sobrinho, ou sobrinha te cumprimente. — Coikis aperta a mão de seu irmão.

— Devem ser gêmeos, eles chutam muito, Coikis. — Tarínia diz, encabulada.

Desde que engravidou, ela tem mostrado às crianças que se impressionaram com a história do ataque do minotauro gigante como usar um arco, arma tão estranha mesmo para os caçadores.

Com um aceno e passos largos, Goratikis deixa suas raízes para trás mais uma vez, com orgulho e sem tristeza, carregando em si as sementes de uma nação para todos os minotauros.

Poucos dias após sua partida, sua mãe faleceu.

Seu último desejo foi ser sepultada onde seu amado Vax foi morto, e assim os aldeões o fizeram.

Na noite em que choraram a morte de sua anciã, a floresta mais uma vez se fechou, e ninguém mais visitou a clareira.

Dizem que do corpo de Zulana, uma montanha nas Uivantes nasceu, bloqueando a passagem do vale com um labirinto que jamais foi percorrido, pois Coikis nem Tarínia nem nenhum dos aldeões, caçadores e pescadores se interessou em sair de seu vale por todas as suas vidas plenas e felizes, esquecendo-se da promessa de Goratikis.

Tauron deu força a seu escolhido e ele deu origem a uma grande nação, auxiliado por seus fiéis companheiros.

Os segredos de seu passado morreram consigo.

Essa lenda continua a viver nos corações de poucos cidadãos, partes como canções de ninar, outras como bravatas de bar, ou ainda em papiros perdidos em coleções pessoais de nobres abastados, sendo revistas e recontadas pelos seus escravos e escribas.

Contudo, o herói que Goratikis foi antes de se tornar o último Rei Minotauro e seus feitos se encerram como em todas as lendas inspirando os corajosos e bravos que mesmo sem nunca o terem visto seguem seus passos.

O caminho dos justos é tão longo e tortuoso quanto um labirinto. Ninguém senão um minotauro o trilhou tão perfeitamente sem se perder.

Quantos mais o seguirão? Só o tempo dirá.

crudebuster
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Re: O Último Rei Minotauro

Mensagem#2 » 27 Set 2010, 14:46

Eu escrevi isso porque não vi em Tormenta nenhuma explicação decente da história passada do grande herói minotauro, que se tornou um grande "que herói?" no meio de toda a história.

Basicamente eu acho que seria uma boa idéia, mesmo não tendo respaldo "oficial", explicar assim o porquê de não haver fêmeas, entre outras coisas.

O único personagem oficial seria Goratikis, o resto eu fui criando. Levou 6 dias, com meu tempo livre e alguma criatividade.

Agradeço a opinião. Tem alguma sugestão para um novo conto?

Barlin
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Re: O Último Rei Minotauro

Mensagem#3 » 10 Out 2010, 16:51

Tá legal e bem escrito.

Porém, na minha opinião, eu esperava mais por serem minotauros. Achei eles humanos demais. Poderia ter trabalhado mais a cultura deles, a fim de não ficarem tão semelhantes a muita tribos indígenas poraí. Trabalhar os valores deles seria algo interessante, talvez mais sanguinários e menos humanos, e esse ter sido o motivo de banir o "herói".

Fora isso, aguardo novos contos.
Inté!

crudebuster
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Re: O Último Rei Minotauro

Mensagem#4 » 10 Out 2010, 20:39

Esse foi pra situar o herói no seu berço, de acordo com a minha visão de antes de se tornarem uma sociedade romana literalmente do dia pra noite sem base alguma, como agora dita o canon.

Sanguinários e menos humanos? Bem, esses são os minotauros normais de Arton. Mesmo os vikings, e os bárbaros sanguinários e temidos tinham suas famílias a quem tratavam extremamente bem. Não são os sacos de xp que tem no livro dos monstros.

Se eu tivesse escrito essa história com orcs, seria a mesma coisa. Em família, todo mundo quer ter paz, não é só violência e gritaria o tempo todo.

Até Conan teve uma infância relativamente boa, enquanto durou... :)

Mas vou escrever mais, afinal este conto foi apenas o finzinho da saga do Goratikis, coloquei ele num ponto onde o canon estabelece um ano de meditação, e pareceu apropriada a volta a uma origem lendária.

Vou escrever toda a campanha de libertação dos minotauros feita por Goratikis, já que ela não é mais que um punhado de parágrafos soltos numa Tormenta dessas.

Barlin
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Re: O Último Rei Minotauro

Mensagem#5 » 10 Out 2010, 22:35

. . .

Eu disse que você humanizou demais. Muitos valores humanos para o que é visto como uma besta mitológica. Talvez se você distorcesse um pouco tais valores, ficasse algo menos clichê. Mas claro, se isso condiz com Tormenta, nada contra.

Já disse que gostei por estar bem escrito e fluído. ;)

crudebuster
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Re: O Último Rei Minotauro

Mensagem#6 » 10 Out 2010, 23:24

Eu sei escrever coisas malvadas e violentas, de fato se eu quisesse esse seria mais um desses contos onde o minotauro é o vilão... Mas já esclareci o motivo.

Fique ligado para mais desse tema. Se você gostou desse, vai ter muito mais de onde veio.

crudebuster
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Re: O Último Rei Minotauro

Mensagem#7 » 12 Out 2010, 01:42

Estamos às ordens.

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