As Termas de Spartanus

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As Termas de Spartanus

Mensagem#1 » 18 Fev 2011, 20:27

Na falta de coisa melhor pra fazer, acho que postar isto aqui não vai fazer mal.

No fórum da jambô, um camarada chamado Spartanus estava a me encher a paciência, e num lapso de criatividade escrevi um conto "homenageando" o cara.

Estranhamente ele anda sumido até o presente momento, mas como ninguém chiou, acho que postar aqui para que fique nos arquivos da Spell não será de mal gosto.


------ Todos os Caminhos levam à Tapista ou As Termas de Spartanus ------




Todos os caminhos levam a Tiberus, a cidade capital do Reino Minotauro de Tapista.

O movimento incessante de seus cidadãos e serviçais para o contínuo funcionamento das benfeitorias a torna quase um formigueiro de atividade durante todas as horas do dia e ainda à noite, quando suas lamparinas iluminam as vias constantemente vigiadas pela Guarda Urbana.

Sem dúvida era um colosso de modernidade, fronte às cidades de ruas enlameadas e becos escuros repletos de ladrões das mais comuns paragens do Reinado além dos limites da ordem imposta pelos minotauros.

Nas proximidades do Quinto Fórum de Tiberus, está a imponente moradia de Spartanus, um notável diplomata, responsável por conseguir tratados com reinos ainda indignados com a realidade da escravidão humana e semi-humana.

Recostado em seu divã, mordiscando uvas e ameixas frescas servidas por duas de suas mais belas serviçais e esposas, Spartanus está irrequieto, apesar de relaxado.

— Os diplomatas estão demorando muito a chegar, não acham? Eu sabia que os guardas eram ambiciosos mas nunca precisei pagar tão caro para conseguir passe-livre para estrangeiros. — Ele diz, balançando sua taça de fino bronze — Por gentileza Sofia, mais vinho, sim? Não quero parecer sóbrio demais frente aos nossos convidados.

— Perdoe-me, a bebida está morna, vou conseguir outro cântaro mais fresco meu senhor, — Sofia, a morena de olhos verdes se desculpava antes de servir.

— Eu a perdôo minha querida, não se preocupe, mas que isso não se repita, sim? Traga-me mais carne de faisão, tenho fome — Spartanus diz, sorvendo a taça de uma só vez, se espreguiçando em seguida.

Em seus aposentos particulares, uma miríade de pinturas retratando o próprio Spartanus em visita a reinos distantes, cumprimentando autoridades, dialogando com reis, até mesmo acariciando seus filhos e esposas, todos sorridentes e satisfeitos.

— O escravo que pintou estes quadros foi um ótimo investimento, preciso de mais alguns para as termas… — Elizabeth, por gentileza chame Snake, preciso conversar com ele, sim?

— Sim, meu senhor. Ele deve estar punindo algum fugitivo nas masmorras, mas o chamarei à sua presença o quanto antes — Diz Elizabeth, a ruiva de olhos azuis e cabelos longos, vestida com uma toga da mais fina seda.

Seus móveis, do mais fino mogno e entalhados pelos mais hábeis artesãos humanos e elfos de toda Tapista, eram de causar inveja mesmo aos Senadores mais ricos (por coincidência os mais corruptos) da corte.

Só Aurakas possuía bom-gosto e requinte equiparável ao de Spartanus, e ainda assim por ser habilmente assessorado por elfos especialistas em artes e tendências estilísticas.

Spartanus andou até a janela e abriu as cortinas, seus aposentos no terceiro andar possuíam uma sacada com uma vista privilegiada da rua.

— Ah, ótimo. Eles estão chegando, finalmente — Ele repousou sua taça e aguçou sua visão. — Sim, são eles sem dúvida, os diplomatas de Deheon e Namalkah, bem a tempo.

— Meu senhor, Snake se encontra aguardando suas ordens, — Diz Elizabeth, recolhendo a taça vazia.

— Muito bem, vejamos, obrigado minhas queridas, podem se recolher aos seus aposentos, sim? Vou estar ocupado pelo resto da noite, vocês foram maravilhosas — Spartanus bateu palmas, convocando todas as suas esposas a se retirar do recinto.

Snake, recostado no pórtico, em sua polida armadura de metal dourado, nervoso com a movimentação das mulheres em togas elegantes e provocantes, tenta não perder a compostura.

— Snake, você cuidou para que aquele carregamento de vinho chegasse à minha adega sem danos? Aqueles malditos fiscais beberrões vivem me roubando as mais caras aquisições a fins de “impostos e aferição”, pessoas sem valor…

— Sim senhor, eu tive muita dificuldade mas todo o carregamento está seguro e em perfeito estado, não deixei nenhum cântaro ser tocado, — Ele bate o punho no peito, orgulhoso do dever cumprido.

— E como você conseguiu isso? Muito me assombra saber que aqueles porcos sedentos não tocaram no meu vinho pela primeira vez em anos.

— Simples, eu lhes entreguei uns dois cântaros com conhaque de Troll misturado, eles ficaram tão enjoados que deixaram o restante da carga incólume.

— Hahahaha! Que ótimo, Snake. Como presente pela sua perspicácia tome uma das minhas esposas pelo resto da noite, ou talvez um dos cântaros, sei que aprecias um bom vinho, — Spartanus estendeu-lhe a mão.

— Eu fico mais que feliz em lhe servir meu senhor, o vinho será mais que suficiente para este servo. — Snake o cumprimenta, sorrindo satisfeito.

— Espero que não tenhas errado o cântaro, se eu encontrar conhaque de Troll em algum de meus aposentos você sabe que terei de puni-lo, sim? — Spartanus ajeita sua toga, olhando fixamente o servo humano.

— Meu senhor, acabo de lembrar de que alguns trolls precisam ser punidos, esqueci eles nas masmorras, mil perdões, com sua licença — Snake desmancha o sorriso rapidamente, andando apressado de volta ao segundo andar, observado de longe por Spartanus.

— Bom trabalho Snake, por gentileza não me perturbe pelo resto da noite, estarei em minhas termas particulares, sim? — Spartanus se dirige ao seu guarda-roupas, se despindo lentamente, escolhendo qual toga o vestiria melhor na oportunidade de encontrar os diplomatas do maior reino humano e da nação dos cavaleiros.

— Hmm, azul transmite calma, branco é paz, amarela é riqueza... Decisões, decisões... — O diplomata admirava seu físico atlético em um espelho de prata, ao lado dos cabides em seu imenso guarda-roupa pessoal, uma sala iluminada por um castiçal suspenso de cristais mágicos.

Não somente togas, mas armaduras comemorativas, elmos mágicos enfeitiçados para presentear visitantes relutantes, sandálias para diversas ocasiões e troféus e medalhas de honra ao mérito pelos tratados conseguidos, numa caixa de madeira jogada com as roupas velhas e manchadas de suas orgias mais selvagens, que ele habilmente escondia de suas esposas para evitar ciúmes e brigas desnecessárias.

— Ah, o verde será perfeito, a diplomata de Namalkah vai adorar. — Spartanus sorriu, admirando seu reflexo e dentes perfeitos.

Com a toga que deixou no chão, rapidamente poliu seus chifres, a atirando na pilha de roupa suja, finalmente fechando as portas do imenso guarda-roupa.

— Hmm, a argola no nariz... Ah, não será necessária, estou em casa, meus convidados vão me ver ao natural, será magnífico como sempre, não é Spartanus? — Ele sorri para seu reflexo no espelho instalado na porta de seu guarda-roupa.

— Senhor Spartanus, se encontram em sua sala de espera os diplomatas de Deheon, GreatWyrm de Gold, e Lorianna Ponystride, de Namalkah. — Um dos seus guardas pessoais, um minotauro corpulento usando uma cota de malha e um elmo de centurião anuncia do pórtico.

— Excelente Yamabushi, por gentileza avise que estou descendo, vou lavar o rosto antes de encontrá-los — Ele acena ao seu guarda, que obedientemente retorna para transmitir o recado.

Na sala de espera, acomodados em bancos do mais puro mármore, os diplomatas esperavam, cansados da viagem e das ruas labirínticas da cidade, porém admirados com a riqueza do ambiente.

Tudo era do bom e do melhor, sem sombras de dúvida. Até as sandálias do guardião da sala eram do couro mais resistente.
— Sejam benvindos à minha humilde residência, nobres embaixadores! Desde cedo aguardo ansioso pelas suas visitas. — Spartanus adentra a sala, bradando em alto e bom som.

— Nossos documentos levaram algumas horas para ser verificados nas fronteiras da cidade, mas entendo que a burocracia é necessária para um ponto tão central deste reino. — Diz Greatwyrm, ajeitando seus óculos e posicionando sua mochila cheia de tomos e blocos de notas.

Greatwyrm não era diplomata por acaso, tinha vasto conhecimento da cultura Táurica, bem como grande interesse em conhecer de perto a grande e vasta organização burocrática.

O único ponto que o incomodava era a escravidão. Informações davam conta de que havia um comércio de escravos clandestinos, além de muitos aventureiros acabarem jamais retornando aos seus reinos de origem capturados aos arredores de Tapista, quando não sumariamente mortos por contratantes insatisfeitos com serviços de baixa qualidade, conforme os relatórios Tapistanos contavam aos representantes dos reinos.

Ao saber do convite de um dos mais famosos diplomatas de Tiberus, o Rei Thormy não teve dúvidas e o enviou, estendendo o convite a uma amazona de Namalkah, cuja missão era saber das condições em que eram tratados os animais — Especialmente os cavalos e as famosas bestas de carga — para informar ao soberano de seu reino.

— Não vi nenhuma besta de carga ou cavalo por todo o caminho até aqui, parece ser verdadeiro o boato de que minotauros jamais montam, senhor Spartanus. — Lorianne, a bela morena bronzeada de olhos esmeraldas diz, cruzando as pernas.

Como todo Namalkhan nativo, ela tinha uma estatura avantajada, e seu vestido mostrava boa parte de suas alongadas pernas, bem como seus delicados pés em gastas sandálias.

— Certamente minha querida, nós jamais chegaríamos onde estamos andando sobre as costelas de ninguém, sei que isso ofenderia aos Namalkhanos em especial, possivelmente amanhã poderemos visitar uma estalagem para que você conheça de perto as bestas de carga que nossas Legiões utilizam. São animais magníficos, asseguro-lhe que são tratados como reis. — Spartanus sorri ao ver a bela fêmea se ajeitar no banco, instintivamente cruzando suas pernas no mesmo ritmo.

— Bem, eu gostaria de saber como são tratados seus escravos, na realidade... — GreatWyrm interrompe o flerte subjetivo, olhando diretamente nos olhos do minotauro galante.

— Não há o que temer meu senhor, meus servos são como meus próprios dedos das mãos nesta casa, não são escravos ou prisioneiros, os convido a cear comigo, antes de lhe mostrar os seus aposentos para o restante de sua estadia. — Spartanus se levantou, curvando-se para os convidados, apontando com sua mão espalmada o portal às suas costas, abraçando seu ventre com a outra, numa pose servil.

Andando pelo corredor até a sala de jantar, os diplomatas eram acompanhados de perto por Spartanus, que mostrava seu vasto conhecimento arquitetônico e estético em cada detalhe.

— As colunas são de mármore bem como cada uma das peças que decoram o chão, os azulejos nas paredes e as pinturas foram feitos por mãos elficas, lhes certifico de que foram bem pagos pelo serviço, um preço justo pelo requinte que trazem à meu recanto e ao de minhas esposas e filhos. — Spartanus diz, ecoando eloqüentemente pelos aposentos, observando os quadris de Lorianne se moverem sob o longo vestido.

Lorianne não se sentia violada, ela sabia perfeitamente o efeito que seus dotes causavam em homens comuns, mas era a primeira vez que um minotauro a fitava com curiosidade.

— Minha cara, você por acaso não seria parente da famosa gladiadora de Valkaria, seria? Seu nome não me é estranho. — Spartanus coçou seu queixo delicadamente observando o lânguido andar da estonteante cônsul.

— Ah, com certeza não, a gladiadora Lorianne não tem o menor talento para burocracia, ela é bastante habilidosa com espadas, nem tanto com palavras, — Diz GreatWyrm, quebrando o silêncio que julgava essencial para continuar andando pelo vasto corredor. — Esse cabeça-de-boi adora ouvir o som da própria voz. — Pensou ele, observando uma fonte em uma das varandas laterais.

— Que pena, seria uma maravilha tê-la como visita algum dia, mas não me sinto menos lisonjeado com sua presença, minha cara — Spartanus toca em seu ombro, apontando uma discreta sala — Ali fica minha sala de jantar, por gentileza entrem!

Uma sala vastamente adornada por cântaros vazios e estátuas de minotauros em várias poses, segurando armas exageradas e enfrentando bestas ferozes em combate corpo a corpo trajando tangas sumárias, ao redor de uma grande mesa de mármore, com duas dezenas de cadeiras enfileiradas ao longo, e uma maior, quase um trono obviamente para acomodar o dono da casa.

— Aqui fazemos as refeições, eu, minhas esposas e meus filhos e filhas jovens. Os mais velhos já têm suas próprias moradias, assim que escolhem suas profissões e o nosso Estado lhes direciona às instituições de ensino, onde serão grandes cidadãos. — Spartanus habilmente puxa uma cadeira para Lorianne — Por gentileza, milady?

— Suas esposas não vêm? — Greatwyrm limpa seus óculos com uma flanela, após se sentar à esquerda da grande cadeira.

— Não as quis incomodar com nossos assuntos diplomáticos, as crianças precisam de descanso e muito sono para sua saúde e bem-estar.

— Me perdoe a indiscrição, mas quantas esposas o senhor possui? — Lorianne pergunta, curiosa, ao se sentar.

— Quinze, das quais atualmente nove estão grávidas, e duas deram a luz a menos de dois meses. Nossa medicina evita a maior parte dos problemas de parto, são raros os casos de morte prematura de rebentos minotauros. — Spartanus rapidamente se senta, sorrindo. — Por gentileza, não me chame de senhor, minha querida, você é minha convidada esta noite.

— Fico muito feliz em saber disso, mas gostaria de conferir eu mesmo os aposentos dos seus servos, tenho certeza que sua palavra é confiável, mas prefiro ver com meus próprios olhos, se não se incomoda, é claro. — Greatwyrm observa algumas esculturas, que retratam a face de Spartanus lutando com as feras.

— Mas que coisa de mau gosto se colocar como um guerreiro, que tremendo mentiroso arrogante. — Pensou GreatWyrm, desviando os olhos do dono da casa, que fitava Lorianne.

— Não há a menor chance de você sair insatisfeito com o que verá, caro Greatwyrm, lhe garanto livre condução pela minha casa, mas antes — Spartanus bate palmas — O jantar será servido.

Uma legião de serviçais, que pareciam vir de lugar nenhum adentrou a sala com bandejas repletas de pratos exóticos rapidamente posicionando talheres, pratos, taças e caldeirões pela mesa.

Depois que todos os pratos foram servidos, apenas três servos, vestidos com togas humildes e completamente calvos permaneceram na sala.

— Por gentileza, minhas pernas de faisão, sim? Não como desde cedo. — Spartanus apontou uma bandeja em particular, que o serviçal rapidamente pegou, posicionando-a inteira de fronte ao diplomata.

Greatwyrm não conhecia nem metade dos pratos, acostumado a refeições mais simplórias, nem em seus sonhos mais selvagens de fazer parte dos banquetes da realeza imaginava tamanha fartura.

— Com fome, Lorianne? Pode pedir o que quiser, temos um bom suprimento de alimentos aqui, todos devidamente inspecionados e livres de doenças e aditivos mágicos que encontramos em alguns criadouros cujos donos foram punidos, sem dúvidas. — Spartanus rapidamente mordiscou uma perna de faisão, dispensando o talher. — Vai me desculpar milady, mas este é o jeito que meu pai me ensinou a comer, bom caçador que era.

— Eu ouvi falar disso, eles usavam aceleradores de crescimento, acabavam por deixar as carnes com resíduos que causavam problemas intestinais terríveis... — Greatwyrm apontou uma bandeja com carne e batatas cozidas — Aquele ali, por favor?

— Uma lástima realmente, alguns pobres soldados foram vítimas destes vis métodos, quase perdemos uma legião por isso. Os responsáveis foram punidos com o rigor da lei. — Spartanus se lembra de como a carne foi um experimento para aumentar a força da legião, porém tornando os pobres sujeitos idiotas como bois até o efeito cessar, este sim o real motivo da punição aos criadores incompetentes.

— Hm, Spartanus, porque todos os criados são calvos? — Lorianne interrompe o faminto minotauro.

— Ah, os nossos cozinheiros preferem assim, nada pior que uma refeição arruinada por um fio de cabelo no lugar errado, não é mesmo? — Ele riu-se, continuando a devorar as pernas de faisão vorazmente, flexionando seus braços de forma a mostrar seus dotes másculos à milady.

Greatwyrm observa atentamente os serviçais, que não esboçam a menor emoção além de estar atentos aos convidados e a seu senhor. Não era possível saber se estavam conformados, aterrorizados ou hipnotizados, tamanha era a presteza com que se portavam.

Lorianne apontou uma salada de legumes, que discretamente consumiu com talheres, após ser servida rapidamente.

— Deseja algo para molhar a garganta, caro Greatwyrm? Tenho uma ótima adega, sempre repleta dos melhores produtos de nossas terras. Conheço bons comerciantes, nem só de diplomacia nós minotauros vivemos, sabe? Uma taça do meu melhor Di Benedetto, por gentileza, Aquanauta. Aceita uma, GreatWyrm? Seu nome é muito interessante. — Spartanus observa seu servo posicionar uma taça e a encher até a borda, sem derramar uma gota sequer.

— Bem, eu não costumo beber em serviço, mas tenho certeza de que negar sua hospitalidade seria uma ofensa grave, Spartanus. Meia taça, por gentileza — Greatwyrm sorri, olhando para Lorianne, que fita o minotauro enquanto ele limpa seus lábios com um fino guardanapo trazido pelo seu servo assim que ele termina sua refeição e lambe seus dedos gulosamente.

O servo calmamente posiciona a taça de Greatwyrm e a enche completamente, apesar da careta que o diplomata faz ao ver seu pedido de moderação desobedecido.

— Não se acanhe, bom rapaz, é ótimo para a digestão! Meu pai sempre tomou uma taça por dia quando se aposentou, viveu até os quinhentos anos com saúde e fertilidade. Eu que sou um de seus filhos mais novos posso testemunhar isso! — Spartanus ergueu sua taça para brindar. — Por gentileza milady, um brinde merece uma bênção feminina, permite-me?

Spartanus olhou de relance para o servo que passava pelas suas costas, e este quase que em pânico preparou uma taça para Lorianne rápido como um raio.

— Hum, mas eu não bebo, me desculpe Spartanus... — Lorianne afastou a taça do cântaro que o servo já preparava.

— Nem mesmo hidromel? Suco de uva? De tomate, talvez? Não nos deixe brindar sós, senhorita. — Spartanus sorria, já sob os efeitos dos “preparativos” para a visita diplomática.

— Uma caneca de hidromel, eu aceito. — Ela diz, afastando as longas mechas que lhe teimavam em cair por sobre o rosto.

— Aquanauta, tenha a bondade, sim? — Spartanus diz, sem desmanchar o sorriso nem baixar sua taça.

Rapidamente, a taça é trocada por uma enorme caneca e é repleta com perfumado hidromel.

— Um brinde à paz! — Brada Spartanus.

— A paz! — Concorda GreatWyrm.

— À liberdade — Lorianne se une ao brinde, Spartanus olha desconfiado, mas continua a sorrir.

— Certamente, não se pode ser livre sem paz. Bem, assim que se considerarem satisfeitos, poderei mostrar-lhes seus aposentos e então amanhã lhes demonstrarei em detalhes como são especiais os nossos servos, que jamais prefeririam viver na selvageria de uma estalagem fedorenta e úmida a morar aqui em nossa fabulosa capital, moderna e segura para todos nós.

A refeição durou pouco mais de meia hora, tendo Greatwyrm devorado bem mais do que poderia, mas nem um pouco arrependido, enquanto Lorianne e Spartanus se entreolhavam entre um gole de hidromel e outro de vinho branco.

Finalmente a refeição terminou, o casal de cônsules satisfeito sendo guiado a seus respectivos aposentos pelo benfeitor da casa, cada qual em um quarto próprio e espaçoso no segundo andar, aparelhado com finos móveis e peças de roupa limpa escolhidas à dedo por Spartanus, bem como banheiros individuais, uma inovação estupenda da engenharia civil minotauriana.

Os castiçais da casa se apagaram, e todo o palacete se entregou ao sono. Ou quase.

Pouco mais de uma hora que havia sido deixado pelo seu anfitrião, Spartanus chamou discretamente Greatwyrm, que roncava alto e satisfeito em seu sono leve.

— Ei, caro diplomata, espero que a digestão não tenha minado suas forças, tenho uma particularidade para lhe mostrar. Deve ter ouvido falar dos haréns minotauros algum dia, tenho certeza. — Spartanus sussurra ao desnorteado homem na cama de lençóis brancos e travesseiros de pena de ganso.

— Mas pensei que você tinha dito que suas esposas estavam cuidando de suas crianças, Spartanus. — Greatwyrm esfrega os olhos e pega seus óculos — O que você deseja me mostrar?

— Ora, um minotauro tem suas necessidades, nós não temos várias esposas só para reprodução... Não existem casas de diversão em seu reino?

— Bem, existem, mas aqui em Tiberus? Eu, eu sou um diplomata, não posso ser visto em uma casa de tolerância, Spartanus! — Alarmado, o burocrata não acostumado a festas ou farras, nem mesmo em sonhos, nervoso olhava para o sorridente minotauro.

— Oh não caro amigo, eu tenho meu próprio refúgio pessoal, meu cantinho de diversão, repleto de servas finas e selecionadas das melhores famílias. Será uma ótima maneira de lhe convencer de nossa maneira de tratar servos! Venha, eu não costumo abrir minhas termas a qualquer um! — Spartanus usava um par de sandálias especiais, que possibilitavam a seus cascos andar no chão de mármore sem fazer barulho.

Greatwyrm notou um par bem ao lado de sua cama, e atiçado pela curiosidade seguiu o cuidadoso minotauro pelos corredores, descendo ao primeiro andar e entrando por uma curiosa porta atrás de um quadro que Spartanus abriu movendo uma lajota solta no chão.

Atrás da porta, uma pequena escada descendo por um estreito corredor escavado na rocha chegava à outra porta, que o minotauro abriu sem cerimônias.

— Seja benvindo às Termas de Spartanus! — O minotauro acenou, mostrando ao tímido diplomata a vasta caverna iluminada.

Cristais mágicos naturais em alguns pontos, noutros castiçais para um clima mais intimista, outros à completa penumbra, com várias piscinas borbulhantes, quentes, mornas, frias, onde várias mulheres belíssimas se espreguiçavam, algumas seminuas dentro das piscinas naturais.

Outras, levando taças de vinho, conhaque e hidromel a convidados insuspeitos — Senadores, vereadores, fiscais, várias fragrâncias e farta sorte de autoridades que se deliciavam com a companhia das escortes.

Mulheres humanas, elfas, qareen às dúzias e a granel, trajando uma miríade de estilos sensuais e ardentes, quando não vestindo apenas a expiração excitada de seus afoitos acompanhantes que disputavam entre si sutilmente em matéria de virilidade e vigor físico.

— Isso é incrível, uma piscina natural bem embaixo de sua casa? — Greatwyrm tentava não ser óbvio, já que não possuía fleuma suficiente para ignorar a visão de uma alcova até então somente ousada em lendas.

— Certamente que sim, mas as belezas aqui não são só naturais, como podes ver. — Spartanus abraçou uma núbia de cabelos encaracolados que levava um coquetel de frutas a um senador, que fumava um charuto tão grande que a coluna de fumaça mal deixava a ponta acesa.

— Não se esqueça do canudo de bronze Katrina, ele gosta de sorver o caldinho de frutas bem devagar... — Ele diz, antes de se despedir da mulher acariciando-lhe as costelas nuas.

— Spartanus, hum, eu agradeço, mas eu não sei, acho que não estou à vontade aqui entre tantos minotauros... — Greatwyrm se sentiu um anão no meio de tantas mulheres belíssimas e minotauros poderosos, que apesar do clima de sensualidade não se importavam com o humano ali, tão acanhado e surpreso.

— Eu esperava por isso. Tina! Helena! Por gentileza, sim? — Spartanus estalou os dedos, e duas ruivas estonteantes, usando peles de leopardo como togas, apareceram de lugar nenhum atrás dele, que rapidamente as abraçou e beijou nos pescoços carinhosamente. — Este é o meu amigo GreatWyrm de Gold, ele é meu convidado especial hoje. Dêem a ele uma noite de Rei! Esse é o meu desejo!

— Nossa, GreatWyrm? Ele é um meio-dragão?

— Não é dragão, sua boba, é Wyrm, você não sabe o que é um wyrm?

— Não é aquele bicho que é grande e cospe fogo? E ele tem o quê de ouro pra se chamar Gold?

— Gold é por parte de pai, hehehe... — Retrucou o encabulado macho.

— Ah, esquece, hoje ele é o Rei! Ouviram meninas? Ele é o Rei!

Pelo salão, todas as consortes vibraram, repetindo “Rei! Rei! Rei! Rei! Rei! Rei!” em um coro ritmado e sensual, chamando a atenção dos nobres para o tímido diplomata.

— Não se preocupe, elas não mordem com fome, nem vão tentar te envenenar, quer dizer, não o suficiente pra te matar! — Spartanus pega uma taça da bandeja de uma loira que ia passando e entorna de uma vez só em sua boca, sendo aplaudido pelas servas quando a levanta como um troféu. — A noite é uma criança, Gegê! Aproveite!

O pobre diplomata desiste e se entrega ao hedonismo, se jogando numa piscina e abraçando e beijando várias das consortes, enlouquecendo com tamanha variedade de tamanhos, cores e texturas de mulheres de todas as terras conhecidas num só lugar de sonhos juvenis.

Parte da mágica estava nas bebidas, claro, mas Spartanus era um bom anfitrião e sabia agradar seus convidados como ninguém.

Discretamente ele se retirou, deixando Greatwyrm se esbaldar na permanente festa para se aproximar da diplomata de Namalkah sorrateiramente e sem intromissões.

— Mil perdões milady, invadir o quarto de uma dama é um ato imperdoável, mas minhas serviçais estão descansando e gostaria de um tempo a sós com você, para termos uma conversa mais íntima, sim? — Spartanus sussurra detrás das cortinas do pórtico ao ver Lorianne olhando para a lua que ilumina os céus tão brilhantes quanto as lamparinas de querosene das ruas de Tiberus.

— Não, tudo bem, eu estava me sentindo muito só, faz tempo que deixei meu amado em minha cidade natal, Spartanus. — Lorianne caminha lânguida na direção do minotauro, as curvas de seu corpo à mostra em seu vestido transparente sob a luz do luar.

— Sinto muito, mas eu posso preencher esse vazio com folga minha cara, você nunca teve curiosidade de saber porque os minotauros tem tantas esposas e estão sempre querendo mais? — Spartanus se aproximou, acariciando a morena de modo inocente, suas mãos grandes e fortes sobre seus ombros delicados e femininos.

— Porque se entediam rápido? — Lorianne se virou, desviando os olhos famintos do minotauro de suas virtudes translucentes.

— Bem, em parte sim, você está certa, mas somos apreciadores das boas coisas da vida, e viver intensamente deve ser o objetivo de cada ser senciente neste mundo, não acha? — Spartanus acaricia a fêmea, sentindo seu calor e seu excitante arco-íris de feromônios inundar o quarto.

— Eu concordo inteiramente, Spartanus. — Lorianne olhou fixamente para o excitado minotauro, seus olhos brilhavam.

— Permita-me... — Spartanus lentamente desabotoou sua toga, um esforço gigantesco de sua mente que se sacrificava em conter seus instintos mais selvagens para saborear a presa já conquistada.

— Primeiro eu... — Os olhos de Lorianne brilharam mais uma vez, e Spartanus foi jogado fora da realidade.

Tempo e espaço, por uma fração de segundo sumiram, tudo o que ele viu e sentiu eram os olhos dela, duas luas claras como o Sol da manhã e então nada mais além de uma duradoura sensação de bem estar, maior que todas as noites que ele jamais teve somado por toda a sua vida.

Acordou em seus aposentos tocado pelos raios do sol por entre as cortinas, desnorteado e completamente esquecido do que tenha ocorrido na noite passada.

— Mas que maldição? Como é que... Aquela mulher usou mágica em mim? Ou foi... Ai minha cabeça... Ressaca dos infernos... Maldição de vinho... — Os pensamentos de Spartanus doíam, bem como seu corpo todo, dando-lhe a impressão de ter sido atropelado por uma manada de antílopes obesos fugindo de goblins montados em ratos gigantes.

Mas uma coisa era certa. Ah, ela tinha sido dele. Só dele, aquela noite. Spartanus conquistou mais uma humana, em tempo recorde. Não se lembrava de como foi, mas foi bom, se apesar da memória ter sido corroída pela bebida, seu orgulho de conquistador ganhou mais um ponto.

Lentamente, ele tentou pedir ao serviçal que lhe trouxesse roupas, pois estava nu, coberto por lençóis em sua cama. Sua voz estava muito rouca, sua garganta completamente rota. Se pensar já doía, se mover o fazia gemer como um doente.

Sua esposa mais caridosa, vendo o estado deplorável em que se encontrava seu senhor, se aproximou devagar ao adentrar o quarto.

— Spartanus, você está bem? Precisa de ajuda para levantar? — Ela já estava acostumada a bebedeiras, mas essa a preocupou muito.

— Eu vou deitar mais um pouco, diga aos nossos convidados que estou me sentindo muito mal, por favor, sim? — Spartanus praticamente gania, deitado de bruços sobre seu confortável travesseiro de plumas de avestruz, no colchão de palha coberto de lã.

— Eles já foram embora, muito satisfeitos por sinal, precisavam checar outras repartições antes de partir, afinal já é fim de tarde, meu senhor — A mulher disse, já avisada pelos serviçais da noite de farra que os diplomatas, os três, tiveram.

— Nossa, eu dormi muito, não deveria ter bebido tanto, acho que caí da escada e nem senti... — Spartanus tentou se sentar na cama, mas seus músculos ardiam e gritavam de dor, todos eles.

Apenas seus cascos e chifres não doíam, até os pêlos lhe formigavam incomodamente, sua pele dolorida como se pés de capim-navalha gigantes crescidos ao sabor do vento das planícies o tivessem lanhado...
Como a chibata nas costas de um escravo insurgente de bruços.
Como um “gato-de-nove-caudas” para punir um troll insolente no dorso.
Como uma “filha do capitão” fundo nas carnes de um marinheiro indolente em seu posto.

Sem erro, sem dúvida, o grande prazer custou-lhe o mesmo em tortura.

Não conseguia se deitar de costas, e como seus chifres o impediam de dormir de lado, só pôde descansar deitado sobre seu travesseiro, esparramado, como um bezerro desamparado.

Durante vários dias, seus serviçais e esposas comentaram a estranha noite. Tamanho era o cochicho que Spartanus ordenou que Snake descobrisse o que é que tanto se riam todos, já que não era novidade alguma o fato de que ele se excedia em algumas festas.

Aparentemente ouviram barulhos estranhos, relinchos agudos no quarto da diplomata.

Por uma hora, duas horas, ecoaram pela casa inteira até parar, e risos abafados tomaram seu lugar quando na manhã seguinte os servos encontraram seu senhor a roncar.

Desmaiado e nu, por sobre a cama da convidada que havia deixado o lugar misteriosamente e reaparecido para tomar café como se nada anormal tivesse acontecido.

Spartanus se orgulhava do feito, já que ele nunca tinha conseguido fazer a casa toda de uma só vez saber que ele era o macho dominador. E assim ficou.

A quilômetros de distância dali, no caminho de volta aos seus reinos, GreatWyrm e Lorianne se deram um último adeus.

— Escute, você contou sobre a sua maldição de família antes que ele te tocasse sob a luz da lua, não foi? — Diz GreatWyrm, prestes a seguir outra estrada, de volta a Deheon com seus relatórios e diário de viagem na abarrotada mochila.

— Sim, tenho certeza que ele sabe. Quando voltei a mim, ele sorria o tempo todo, não pode ter sido ruim. Meu noivo nunca me contou como é que foi, ele só sorria, com cara de bobo. Foi bom pra mim também. — Lorianne diz, encabulada, puxando as amarras de sua mochila.

— Bem, boa sorte no seu casamento. Talvez eu vá visitar sua família daqui a alguns meses! — GreatWyrm acena e ajeita os óculos no nariz, andando em seu passo normal.

— Claro, apareça! — Lorianne se afasta, acenando e andando de costas, até perder GreatWyrm de vista no horizonte.

Caminhando pela estrada vagarosamente, tão logo a lua aparece alta no céu ela passa a correr cada vez mais rápido, esquecendo seus limites, até que um clarão a toma por inteiro, transformando-na no espírito que protege a sua família há décadas, um corcel branco rápido como um raio, livre e indomável pelas estradas de terra de Arton, visto com assombro por alguns e fascínio por outros.

Não se sabe bem como ele aparece, e sempre que alguém menciona a lenda, nunca se tem certeza do porquê, se era a mesma lua, ou a ânsia de liberdade que todo ser, selvagem ou domesticado possui em si se libertando por algumas horas, até a lua sumir, ou a vontade passar.

Só sabe-se com certeza que é bom, mas nem sempre agradável tentar domar o corcel-da-lua.

Como o coração de uma mulher, ele é difícil, quase impossível de compreender, mas valioso e admirável, enquanto bruto e selvagem.

Sempre há um tolo que julga ter conseguido dominá-lo se machucando, mas sempre tentando repetir o feito.

É uma curiosa batalha, perpetuando-se pelos séculos nos corações dos apaixonados.

crudebuster
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Re: As Termas de Spartanus

Mensagem#2 » 19 Fev 2011, 03:20

Tens razão em ambas afirmações.

Mas o pessoal gosta de um show. Faz as pessoas se interessarem pelo assunto, seja ele qual for.

Se é digno de nota, bem, isso já é outra história.

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