O Corsariano - A infancia

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rickardorios
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O Corsariano - A infancia

Mensagem#1 » 03 Mar 2011, 09:06

Olá pessoal. Sou um escritor de ficção medieval e gostaria de coletar opiniões gerais sobre minha obra abaixo.

A história inteira é composta de 5 capítulos: "Murmurios da Madrugada", "O Sacrificio de Carlos", "Descida pelo vale dos Ventos", "Predadores da Noite" e "Serata: O choro de um Nobre".

Muito obrigado pela atenção, e não se esqueçam de comentar =).

* A obra é de minha autoria e os direitos autorais estão garantidos pela Fundação da Biblioteca Nacional.

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Murmúrios na Madrugada
Era noite com jeito de dia. A cada minuto que passava mais e mais olhares curiosos eram vistos pelas ruas de tijolos brancos. Os cidadãos da Chama do Oeste saiam de suas casas, carregando suas lamparinas, e tentando entender o porquê de tamanha barulheira durante a madrugada. O rei Lionel havia decretado uma lei de silêncio a partir da hora da lua alta, quem ousara quebrar este silêncio era no mínimo corajoso. Mas não havia guardas-noturnos. Nem vigias. Não havia nenhuma autoridade da lei que fizesse valer o direito do decreto. O que estaria acontecendo? Todos se perguntavam. Uma senhora trajada com um pijama azul-celeste, segurando em um dos braços seu gato de estimação, aproximou-se dos degraus de sua casa, olhando inquisitivamente para seus conterrâneos.
- Boa noite Mafalda - disse um senhor de cabelos grisalhos enquanto ajeitava seus óculos fundos de garrafa.
- Olá Gregório, me parece que a noite não está sendo tão boa. Você conseguiu ouvir alguma coisa daquela gritaria? - replicou a senhora gorda com cara de poucos amigos.
- Não, não realmente. Eu acho que está acontecendo alguma coisa no salão superior. Eu ouvi muitos galopes agora há pouco indo naquela direção.
- Espero que não seja nenhuma das invenções do Flitch, se dessa vez ele criou alguma confusão noturna eu juro que serei a primeira a pedir diante do rei em pessoa pela expulsão daquele traste da cidade.
- Quê isso! Não fale assim do pobre coitado.
- Pobre coitado? Você chama aquele marginal de pobre coitado? Quem foi que destruiu a principal ponte das correntezas? Quem foi que queimou todas as lamparinas das ruas com a brilhante idéia de tentar gerar iluminação a gás?
- Calma Mafalda, ele estava tentando criar coisas úteis. Você sabe que aquela ponte estava quase caindo pela força das águas, e além disso, como pode culpar o garoto por tentar diminuir a carga de trabalho dos Cremores?
- Futilidades. Isso é o que eu digo! Se aquele garoto tivesse pai e mãe ele já teria levado uma surra que o deixaria em pé por dias.
- Boa noite - disse uma voz fina e elegante vinda da direção oposta da rua.
- Esta noite não está sendo boa Griffor, se estivesse eu estaria em cima de minha cama neste exato momento, disse Mafalda.
- Concordo plenamente minha senhora. É uma pena estarmos todos acordados a essa hora - disse Griffor, de forma polida e altiva como de costume.
- Você tem alguma idéia do que está acontecendo Griffor - inquiriu Gregório.
- Ah, sim! Se não me falha a memória, hoje é dia da Exposição da Armada.
- A Exposição da Armada? Isto não deveria ocorrer após o sol raiar? - retrucou Gregório.
- Provavelmente aqueles dementes vestidos de metal quiseram acordar mais cedo para estragar nosso dia - falou Mafalda visivelmente irritada com o fato - o rei Lionel deveria enviá-los para uma missão no monte das Górgotas.
- Mas isso seria uma viagem só de ida - observou Griffor.
- Pois é! Aí sim eles valeriam o que comem - exclamou Mafalda.
- Bem o Gregório disse uma coisa certa, se for realmente a Exposição da Armada eles estão adiantados - retrucou Griffor enquanto olhava para um pequeno objeto metálico em seu bolso.
Nem bem Griffor terminou de olhar seu relógio quando um barulho estridente e ensurdecedor ressoou por cada via, dentro e fora dos canais subterrâneos, através das praças, casas, galpões até transpassar as muralhas externas alcançando o céu cinzento. Os predadores noturnos da região pararam de caçar e, sendo dominados pelo medo do som gutural, fugiram. O Sonido foi ficando cada vez mais grave, e parecia durar uma eternidade. Todos os murmúrios que eram ouvidos aqui e ali foram instantaneamente emudecidos. Neste momento, comentar sobre a estranheza da noite já não era mais importante.
- Não é possível... - balbuciou Mafalda enquanto esfregava o seu braço dolorido devido ao frenesi do seu gato diante do som.
Os olhares curiosos pouco a pouco passaram a se alargar em espanto e incredulidade. Como se um lampejo de compreensão clareasse todos os pensamentos, as pessoas começaram a entender o que estava ocorrendo. Aquela noite estranha passaria a ser histórica. A corneta de Nuriel, após mais de 50 anos de inatividade, soara mais uma vez. E eles sabiam, tudo iria mudar.

...

- Acalme-se, não há mais nada que você possa fazer - uma voz aflita murmurava
- Jamais deixarei a minha terra, nem abandonarei meu rei. Não enquanto eu respirar, largue-me - falou impetuosamente um senhor alto enquanto puxava o braço fino que o segurava para longe de seu corpo.
- Alatheu, por tudo que você mais preza nessa vida, agora não é hora de lutar. Não entregue sua vida em vão.
- A minha vida não será em vão, e a darei de bom grado em nome dos meus deveres. Agora, saia da minha frente mulher.
- Eu não deixarei você ir - a mulher com seus negros cabelos curtos colocou-se à frente da porta, olhando atentamente das mãos grossas do cavaleiro para o olhar ávido em sua face. Seu corpo frágil não seria capaz de impedir sua passagem, ela provavelmente seria lançada ao lado com tanta facilidade quanto um vento leva uma pena. Mas estava determinada a resistir o quanto fosse necessário, se isto significasse salvar a vida do seu homem. Sabia que não agüentaria, mas custasse o que custar, não iria sair da frente daquela porta.
Rapidamente o cavaleiro amarrou seu coturno, fixando a aba de sua calça internamente, e colocou as braçadeiras de prata talhadas com ondas douradas, marca dos Éromes, última peça de sua armadura que faltava pôr. Agarrou sua espada, e colocando-a no estojo, dirigiu-se para o seu último obstáculo.
- Aline entenda, você se casou comigo sabendo que um dia isso poderia acontecer. Eu sou um cavaleiro real, e não me permitirei viver enquanto a vida do meu rei estiver em perigo. Você não ouviu a corneta? Que a sorte nos livre deste infortúnio, e que ela tenha sido soada por engano. Entenda, e saia - ordenou a voz firme.
- Não - desta vez Aline vacilava, já não conseguia mais manter sua postura, seus olhos começavam a sentir o lacrimejo da angústia.
Um baque forte foi ouvido atrás da porta de madeira. Aline, como que por instinto, pulou para o lado deixando o espaço livre que foi preenchido rapidamente por Alatheu, com sua espada já em punhos. Novamente o baque foi ouvido, desta vez com uma força brutal que fazia as dobradiças tremerem. Com um rápido movimento, Alatheu abriu a porta, e com a força do seu corpo lançou-se em direção aos ombros largos da sombra. Usando seu antebraço esquerdo, prendeu o sujeito desconhecido pelo pescoço impedindo qualquer fonte de respiração, a medida que a ponta de sua espada parava a centímetros do abdômen.
Os olhos do cavaleiro cerraram-se. Os punhos contraíram-se.
- Alatheu... - sussurrou a voz, que apesar de sair fracamente, denunciava uma firmeza escondida.
- Yorish... - exclamou Alatheu, e imediatamente seu antebraço relaxou abaixando o gume de sua espada. Recuperando o fôlego, Alatheu continuou: vida longa a Lionel irmão.
- Temo que não mais poderemos usar esta expressão, o rei está morto – falou soturnamente Yorish.
Se todos os habitantes de Toril se transformassem naquele exato momento em Gárgulas, ainda assim o olhar perplexo de Alatheu não estaria carregado de tanto torpor - “Lionel, morto?” - sua mente buscava memórias esquecidas de um senhor barbudo, cheio de vigor, aparando um menino franzino e amedrontado. Memórias que o levavam ao salão superior, onde em glória ouvia o juramento real. Memórias de aventuras no penhasco Kitrel, das lutas contra os Cortolhões, da sábia ordem que o poupara da morte tempos atrás. - “Não, não pode ser” - sua mente chegara a esta conclusão. - “Yorish está errado” - pensava enquanto olhava incrédulo para o rosto do amigo. Lionel poderia ser dado como morto, e ainda assim estar vivo, afinal ele sabia como passar minutos como um morto, técnica que tantas vezes já tinha utilizado. Seus pés tremiam, seu corpo desmoronou na parede próxima, sua mão firme afrouxou-se liberando uma espada vacilante, agilmente segurada por Yorish antes de atingir o chão.
- Alatheu tem mais uma coisa. A criança vive. Olhe - Yorish fez um gesto com a cabeça, apontando em direção a um cesto, com uma criancinha firmemente embrulhada dormindo milagrosamente apesar de todos estes ruídos.
Ainda sentado, incrédulo, Alatheu olhou vagamente para a cesta. Os Éromes são famosos por serem ágeis, tomam decisões rápidas, que muitas vezes os livram da morte em momentos decisivos. Todo Érome conhece o adágio: "A um átimo de segundo, rompe-se o fio da vida"; eles são treinados assim, desde que nascem. Por isso são letais, ferozes contra qualquer espécie de ameaça, expressam sempre uma calma gélida diante dos fatos, e mesmo na hora em que seus olhos são fechados, as suas faces demonstram uma avidez sem igual, como se suas mentes ainda funcionassem, ainda decidissem, mesmo quando já não há mais um corpo para executar estas decisões. Mas não era assim que Alatheu se sentia no momento, por mais duro que tenha sido o seu treinamento, nenhum Érome resistiria as emoções da falha de sua missão mais fundamental: respirar apenas enquanto no rei houver vida.
- Alatheu, você não me ouviu? A criança vive. Escuta bem. A criança vive! - repetiu veementemente Yorish, enquanto segurava firmemente o rosto do amigo, como se tentasse fisgar para a superfície os olhos do cavaleiro caído.
- A criança vive..., repetia Alatheu, sem se dar conta do que estava dizendo. A criança vive...
- Sim, e ela precisa da gente. Levanta! O tempo é curto, precisamos sair daqui - disse Yorish.
Como se um lampejo de entendimento cruzasse a mente de Alatheu, ele olhou para Yorish, desta vez com um olhar decidido. Reuniu forças, apoiou-se na parede, e erguendo-se disse:
- Muito bem, vamos sair daqui.
Recuperando sua agilidade natural, Alatheu entra velozmente em seu quarto, vai em direção a um baú no pé de sua cama, retira uma mochila de couro antiga, costurada em diversos pontos com fios grossos, e com um olhar rápido verifica o que falta para provisões imediatas. Ele não sabia quanto tempo precisaria ficar em jornada, mas não havia tempo para planejamentos. Contou alguns sacos de rações, pedaços de carnes defumadas separadas em pacotes e frutas cristalizadas. Ainda no baú, pegou papéis, tintas, e penas de escrita, para caso seja necessário deixar mensagens ao caminho. Alguns elementos básicos como cordas, arpéus e tochas já estavam preparados, como se esperassem por um momento de fuga. Alatheu fechou o baú, colocou a mochila nas costas, e andou a passos largos para fora do quarto.
- Eu estou com um péssimo sentimento de que nunca mais te verei novamente -disse Aline em prantos.
- Aline foi para isso que fui treinado, para sobreviver. Não se preocupe, eu voltarei para você. Eu não sei o que está acontecendo, mas se for o que penso, é bom que você saia do castelo, vá para a vila, se esconda entre os moradores, mude de nome e mude sua aparência. Você sabe em que podemos confiar, quando tudo estiver normalizado, voltarei e te encontrarei.
Aline mal pode balbuciar um único som, apenas olhava para o chão, se recusando a pensar ou mesmo acreditar no que acabou de ouvir. Alatheu puxou seu rosto delicadamente, e a beijou com ternura.
- O meu coração estará sempre com você.
Quando ele terminou de dizer estas palavras, um sentimento de urgência ainda maior se apoderou de sua alma. "Como eu posso ter esquecido" - pensou o cavaleiro. Rapidamente ele voltou ao seu quarto, aproximou-se do armário e o empurrou ao lado. Com o pé, ele batia devagar com cuidado e técnica no assoalho.
- O que houve Alatheu? Temos que ir. Agora! - exclamou Yorish.
- Eu sei, eu sei - disse em resposta Alatheu.
Um som oco foi escutado. Alatheu se abaixou, socou o chão em um ponto específico. Abaixo do assoalho havia uma caixinha, não muito grande, mas delicadamente embrulhada por um tecido vermelho com bordas douradas, fino e elegante. Ele retirou esta caixa com reverência, colocou em sua mochila. Se levantou, pegou sua capa, e disse:
- Estou pronto, vamos.

O Sacrifício de Carlos
Os Éromes residem dentro do castelo, e cada um deles é visto como mini senhores feudais, regentes de uma porção da fortaleza. Apesar da estrutura física ser a mesma em cada uma destas porções, na prática, no dia-a-dia, os servos, os afazeres, e todo o resto são completamente diferentes. Claro que todos estavam submetidos a autoridade real, mas até certo ponto, cada um dos Éromes gozavam de um respeito quase que real. Eram nobres. Não por tradição familiar, mas por merecimento. Por isso era difícil achar um Érome arrogante; muito mais fácil achar um rei que não reina, do que não achar virtudes naqueles que foram peneirados para serem, ao mesmo tempo, servos e senhores perfeitos.
A medida que Alatheu e Yorish percorriam o corredor de pedras frias, eram vistas janelas trabalhadas no muro de pedra. Eram janelas abauladas em cada uma das pontas, com uma moldura de madeira tingida a ouro branco. Se qualquer um dos dois tivesse em um dia comum, parariam para admirar a vista da Chama do Oeste. Ninguém sabe ao certo o motivo deste nome. Anekalar Toril, o fundador desta cidade, quando ainda possuía o vigor da juventude, havia se instigado a conhecer uma região de nuvens cinzas espessas. Estas nuvens eram robustas, e pareciam sair do chão, pois do horizonte não se conseguia distinguir onde terminava as nuvens e onde começava o solo.
Ao menos isso é o que dizem os ditos populares, passados de pai para filho, há séculos. Outros ainda desconfiam que apesar de não existir uma chama em Toril, o calor das masmorras internas, tão conhecida região de tortura e procurada por reis, rainhas e governantes, para descobrirem segredos de conspiração dos subalternos, é o responsável por dar a região o nome de Chama do Oeste, talvez uma referência ao calor. Uma coisa é certa, poucos sobrevivem ao terceiro nível da masmorra, e pouquíssimos são aqueles que vivem no quinto nível. Dizem que existe até mesmo um sexto nível, e que todos aqueles que ali estão, já não são mais humanos, ou ao menos não são mais reconhecidos como humanos.
Mas este não era um dia comum. Os cavaleiros avançavam a passos corridos com elmos postos. Os Éromes tinham a liberdade de escolher quais seriam os tipos de armas que se especializariam, uns eram os melhores arqueiros, outros se davam muito bem com maças, mas a espada, por tradição e valor, eram as mais usadas. Alatheu tinha a sua e ele a chamava de Prata Fria. Não gostava de escudos, carregava apenas a arma branca como forma de ataque e defesa. Muito diferente de Yorish. A altura de Yorish deixava qualquer um temeroso em apenas olhar para ele, seus olhos e cabelos claros davam um certo ar de beleza e graça ao jovem cavaleiro. Ele era anos mais novo do que Alatheu, mas já tinha uma maturidade anciã. Seus cabelos longos esvoaçavam desordenadamente abaixo do elmo, com a rapidez dos seus passos.
- Para onde agora Alatheu? Quando sairmos de Nindorrel, para onde iremos?
- Discutiremos isso depois, por hora só sabemos que não podemos ficar em Corsária.
Ele sabia o peso desta declaração. Sabia que nunca mais veria este castelo novamente. Sabia que nunca mais sentiria o calor de Aline em seus braços. Mas o seu dever era maior, muito maior que suas próprias vontades. Alatheu tentou afastar a péssima sensação que veio após ouvir o som de suas próprias palavras.
- Espere! - disse Yorish atento, erguendo um dos braços na altura do peito de Alatheu, colocando o cesto no chão Yorish retirou sua espada da bainha.
Era uma trifurcação. O corredor que acessava os quartos era uma descida suave até a área de serviço. Apesar de nenhum dos dois terem discutido a respeito do assunto, ambos sabiam que a saída pela área de serviços, como se fossem empregados insignificantes, seria a escolha natural do momento. O final deste corredor era a trifurcação, com o próprio corredor sendo um dos ramos, e os outros dois, caminhos para as outras torres dos Éromes e para o Salão Superior. Yorish esperou, quem quer que viria por um destes dois corredores, chegaria a trifurcação, e seria surpreendido pelo Érome.
- Precisamos arrumar uma... - a voz fina de um sujeito magro é interrompida mediante ao som agudo do tilintar da espada de Yorish. Com um movimento rápido e preciso, Yorish desarma o oponente, derrubando em duas partes o bastão de madeira. Olhando em seguida, espada em riste, para o sujeito abobalhado.
- Saia do caminho, não ouse... Flitch? Mas que raios você faz aqui a esta hora da madrugada
Yorish nem bem terminou de perguntar, quando um novo golpe cruzou o ar, mas desta vez não foi um som agudo, mas um som seco, como de um objeto pesado sendo lançado com ímpeto em direção ao braço do cavaleiro. Alatheu foi mais rápido, e percebendo o movimento súbito, lançou-se em defesa do amigo aparando a maça com a lâmina de sua espada. O choque ecoou entre as paredes silenciosas do corredor. A escuridão não dava para distinguir bem quem era o autor do golpe. Yorish recuperando-se do golpe de surpresa esquivou-se ainda com sua espada em riste.
- Vejo que seus reflexos continuam aguçados nobre amigo - disse rindo um sujeito calvo, e tão baixo quanto uma criança diante dos cavaleiros.
- Carlos? - disse Yorish - Você está vivo?
- Sim, estou e peço desculpas Yorish, não havia percebido que você fora o autor do ataque - comentou Carlos, enquanto colocava sua maça nas alças em suas costas.
- O que vocês fazem aqui? - perguntou Alatheu.
O sorriso de Carlos cedeu a uma expressão severa enquanto relatava os últimos acontecimentos.
- Alatheu, esta é a situação. Nosso rei está morto. Dos 24 Éromes, os únicos restantes estão respirando dentro deste corredor estreito. Isso mesmo, somos os últimos de nossa classe. A maior parte dos nossos irmãos foram mortos a surdina, na calada da noite, enquanto dormiam. Não sei bem como isto se iniciou, mas parece que uma grande conspiração foi bem arquitetada, pois não houve nenhum indício estranho de que a Nova Armada estaria corrompida.
- A Nova Armada? - perguntou Yorish.
- Sim, eu discerni as insígnias dos que começaram o ataque ao castelo. E eles não estavam só, alguém os comandava. Félix.
- Maldita seja a hora que a mãe daquele infeliz o deu a luz, disse rangendo os dentes Yorish.
- As defesas internas do castelo foram subjugadas, e cada uma das armadilhas e rotas de escape foram previamente desativadas. Ele planejou bem o golpe. Avisamos a Lionel que aquele garoto era perigoso, ele não quis ouvir, não quis acreditar - retrucou Carlos.
Alatheu e Yorish se entreolharam, um clarão de entendimento cruzou suas faces. A saída dos servos já não era mais uma opção.
- O que é isso? - falou pela primeira vez, agora já recomposto do susto, Flitch. Ele apontava para o cesto que ronronava estranhamente.
- Isto meu caro Flitch é o ponto fora dos planos de Félix - disse Yorish.
- Não me diga, esta é a criança? - falou abismado Flitch.
- Sim, ela...
Uma flecha corta o ar, seguido de um grito de dor agudo. Ao lado de Yorish Carlos geme, enquanto leva instintivamente sua mão em direção ao ombro trespassado. A flecha acertou às costas de Carlos, em um ponto entre as placas da ombreira prateada - um tiro de precisão. Sangue escorria do local por entre as mãos do cavaleiro e pingava no chão.
Uma segunda flecha cortou o ar, mas desta vez já não havia mais surpresa. Flitch lançou-se ao chão em direção ao cesto, e com o seu corpo protegeu e puxou a criança para fora da trifurcação. Yorish impetuosamente empurrou com os ombros o seu amigo ferido, que caiu desengonçadamente ao chão urrando de dor. Ergueu o seu escudo, e ficou à frente do corredor escuro, sem distinguir quem estava lançando as flechas. Mas pela direção que veio o projétil era óbvio que o Érome e o aprendiz já estavam sendo seguidos, e era uma questão de tempo serem interceptados. Alatheu colocou-se atrás de Yorish, usando da cobertura do escudo do amigo, puxou de um bolso de sua calça um pedaço de metal ricamente polido, e rapidamente tentou verificar a origem do ataque. Estava longe, e tudo o que ele conseguia enxergar eram sombras ladeadas com as paredes do corredor. Nenhuma flecha foi ouvida novamente. Alguns segundos se passaram entre o grito de Carlos e o instante em que foi ouvido o som tilintante do desembainhar de duas novas espadas. Os cavaleiros ouviram e entenderam que era hora do confronto corpo a corpo.
O primeiro a se antecipar a batalha foi Alatheu, ele girou seu corpo esquivando-se da parte de trás do escudo de Yorish, e desferindo ao mesmo tempo um golpe em meia-lua no oponente mais próximo. O golpe inesperado atingiu a malha do antebraço do guerreiro parrudo com tanta força que fez as placas da armadura de seu braço se soltarem e voarem na direção oposta ao golpe. A malha foi rasgada de um ponto a outro, sangue escorria ao chão e ódio enfurecia a expressão agora visível do baixo guerreiro. Sem se importar com o braço, a sua mão direita girou em busca da perna de Alatheu, que pôde ser rápido o suficiente para pressentir o movimento e esquivar-se, desferindo ao mesmo tempo um novo golpe usando o cotovelo diretamente no nariz do seu adversário.
Enquanto isso Yorish, alheio à segurança de seu amigo, foi com tudo para cima do segundo atacante projetando-se com seu escudo sem se importar com a força da trombada. Só que diferente do adversário de Alatheu, este era mais alto e magro. Não usava elmo, tinha olhos ligeiramente amarelados e esguios, como se tivesse sido acordado a força depois de uma noite mal dormida. Sabendo o que Yorish pretendia fazer, o jovem guerreiro usou seu escudo, ajustou suas pernas e se interpôs à tentativa de levá-lo ao chão. O choque foi oco e abafado de metal contra metal rangindo. Yorish procurou ser rápido, com seu antebraço esquerdo tentou usar seu escudo para desequilibrar seu adversário na tentativa de achar espaço para o golpe de sua espada. Mas seu oponente estava ligado, e com um deslocamento sorrateiro deu dois passos para trás, deixando que Yorish se desequilibra-se com um movimento em meio ao espaço vazio, e girou sua espada buscando a cabeça do Érome. O golpe seria fatal, mas o cavaleiro se abaixou a tempo largando o escudo ao chão. Com as duas mãos, Yorish balançava sua arma em círculos, ressarcindo ataques e tentando acertar algum ao mesmo tempo. As duas espadas se chocaram, olhar contra olhar, a respiração ofegante tornava o ar mais quente, e todo o corredor era uma sensação de abafamento sem fim. As armaduras brilhavam pelo suor dos combatentes.
- Chegou seu tempo Érome, prepare-se para desaparecer... - disse rindo o guerreiro de olhos amarelados.
Yorish não retribuiu o insulto. Apesar de ser não tão mais velho do que o guerreiro zombador, ele era um Érome e tinha o controle sobre seus impulsos. Ele sabia o que tinha que fazer, permitir que a ansiedade do seu adversário lhe desse a oportunidade de desferir o golpe fatal. Então habilmente ele forçou sua espada contra a do jovem guerreiro, e com um único longo movimento tentou abaixar a espada inimiga, que apenas o acompanhou, ainda firme, sem sinal de que cederia espaço. Yorish recuou, e voltou a golpear com agilidade três vezes, em uma seqüência de movimentos que buscavam o tronco do adversário, que ria, a medida que ressarcia os ataques.
Apesar de não ter muito espaço Yorish tentou desferir um golpe de cima para baixo buscando o ombro do adversário, no entanto sua verdadeira intenção era permitir que o jovem guerreiro o derrubasse. E exatamente como previu aconteceu. Seu oponente aproveitou o tempo concedido pela tentativa do movimento descendente, abaixou-se ligeiramente e com uma rasteira derrubou o Érome, que deixou sua espada escorregar sem resistência para o chão liso. O jovem guerreiro confiante, sorriu maliciosamente, e sentiu uma avidez mórbida, como se estivesse construindo sua glória. Lançou seu escudo ao lado, segurou sua espada com as duas mãos e desceu com tudo buscando o ventre do cavaleiro, que já preparado para o golpe de execução sacou de sua calça uma faca curva e a estocou com força e firmeza na garganta do adversário. O sangue saia em jato de pressão para a face de Yorish, que olhava atentamente os olhos amarelados se apagarem.
Yorish empurrou o corpo sem vida do oponente ao lado, e sem limpar o rosto, achou sua espada e olhou em volta. Ele viu Alatheu combatendo contra dois guerreiros ao mesmo tempo. Um estava com o braço completamente dilacerado e tentava a todo custo atingir o cavaleiro. O outro parecia feroz. Não era tão alto como os Éromes, usava um elmo com marcas de afundamento em várias partes. Dava para se perceber pelo cavanhaque com bigode ralos o esforço inútil do combatente para driblar o experiente Érome.
Alatheu não perdeu tempo. Chutou com força o abdômen do guerreiro parrudo levando-o ao chão, e antes de recompor de seu golpe usou os ombros para empurrar o segundo adversário. Prata Fria subiu e desceu esperançosa para atingir seu inimigo, buscando sistematicamente, entre golpes de desarme e de desequilíbrios, uma forma de penetrar a armadura do oponente. Não tardou para que um desses golpes atingisse de uma só vez uma alça de couro da aljava (que rompendo-se esparramou flechas ao chão) e o rosto do oponente. O golpe foi tão forte que Prata Fria dilacerou em um grande ferimento aberto a face direita do guerreiro de cavanhaque. O elmo voou para longe. O guerreiro gritou de dor e tremendo perdeu as forças encostando na parede mais próxima. Alatheu já aguardava o levantar do outro guerreiro, que procurando as costas do Érome, achou a ponta de Prata Fria. A perfuração foi tão forte em seu ventre que alcançou o outro lado do corpo do guerreiro parrudo. Ele se estrebuchou e pendeu para o lado, morto.
O último combatente que faltava estremeceu e procurou pensar rápido. Só que muito mais cedo do que ele esperava a solução apareceu. Passos fortes de botas iam se aproximando da cena e a distância ele avistava mais de seus amigos, cerca de uns cinco, pelo que ele podia notar. A confiança voltou ao seu coração.
Yorish foi o primeiro a notar a aproximação de mais jovens da Nova Armada. Ele sabia que agora a batalha ia ser mais difícil, levantou-se e se pôs ao lado de Alatheu. Mas alguém já tinha feito isso. Alguém já esta lá ao lado de Alatheu. Com sua maça ao ar, Carlos já estava posicionado para a batalha quando falou em bom som:
- Alatheu, Yorish, esta batalha não é mais de vocês. Sumam daqui com a criança. Eu lhes darei algum tempo.
- Nem pensar - falou Alatheu.
- Não seja burro. Quanto tempo você acha que vai durar quando toda a Nova Armada começar a entrar por este corredor? Eles vão matar todos nós. Honre o seu dever, saia daqui - retrucou impassivelmente Carlos.
Yorish percebeu que Carlos havia entendido. O dever dos Éromes não havia morrido com Lionel, ainda estava vivo. Ele puxou Alatheu com força.
- Alatheu é hora de irmos.
Alatheu concedeu um último olhar de pesar ao rosto de Carlos, que lhe retribuiu com um sorriso vacilante. Carlos então passou a frente dos Éromes e balançando sua maça gritou:
- Traidores, canalhas, bastardos...
Enquanto isso os dois Éromes pegavam um Flitch assustado e a criança que estranhamente dormia sem preocupações. Eles então começaram uma corrida em direção a área de serviços, e a medida que se afastaram da trifurcação ouviram sons distantes de morte e destruição.
Pouco tempo se passou até que Flitch, ofegante, fez a pergunta mais óbvia do momento:
- Como iremos sair daqui?
- Não faço a menor idéia, eu tenho alguns arpéus na mochila, acho que a saída vai ser escalar o desfiladeiro externo - respondeu pensativamente Yorish.
- Concordo, o fundamental agora é eles pensarem que estamos fugindo por nossas vidas. Desviaremos a atenção do objetivo de nossa fuga - ponderou Alatheu.
- Mas vocês não estão fugindo por suas vidas? - perguntou Flitch.
Ambos os cavaleiros olharam para o jovem aprendiz que entendendo o olhar incrédulo dos Éromes, limitou-se a ficar calado.
Já era possível avistar o final do corredor que dava em uma porta de madeira bem trabalhada por onde se chegava a área de serviços. Esta área é o local onde a maior parte das funções dos domínios dos Éromes eram executadas, desde a parte da alimentação, estocagem e limpeza, até a parte de armamentos e estábulos. Sendo uma ampla área quadrática e possuindo várias portas em cada umas das paredes, era comum sempre encontrar muito movimento, pessoas se cumprimentando, passando rapidamente, ou apenas jogando conversa fora para passar o tempo. Geralmente era um lugar animado e descontraído, mas aquela hora da noite não havia ninguém: seja porquê as pessoas estavam amedrontadas com a barulheira ou porquê os preparativos da exposição da armada haviam exaurido toda a energia dos serviçais, fazendo eles dormirem como pedras. Mas era bom assim. Quanto menos se visse e ouvisse, mais fácil seria alcançar o objetivo de sua missão.
Alatheu não pensou muito, conhecendo bem o lugar que ele dominava foi em direção a porta que levava a cozinha. A região estava em silêncio, com uma mesa de madeira rústica e tocos de troncos que eram usados como assentos bem arrumados em seus lugares. Pelas janelas avistava-se o céu escuro, não mais tão nebuloso. Desta vez já era possível ver o brilho de algumas estrelas, e a julgar pela posição das luas já era a hora do fogo crescente, e o amanhecer já não estava longe. Foi Flitch que quebrou o silêncio, desta vez com um comentário perspicaz.
- Alatheu, se eu bem me lembro, a última vez que estive em sua cozinha você havia dito que a dispensa havia sido construída com uma de suas paredes voltadas para o desfiladeiro para facilitar a ventilação. Não é verdade?
- Sim Flitch, por quê? - indagou Alatheu.
- Eu acho que tenho como criar uma saída para nós - falou Flitch.
Desta vez os dois Éromes olharam para Flitch, mas com um olhar inquisitivo, como se tentassem entender o que viria em seguida.
- Olha, eu posso quebrar as paredes usando isto - Flitch falou, a medida que tirava um frasco bem pequeno de um dos seus bolsos. Nesta ampola se via um pouco de pó violeta, que mais parecia areia colorida para criança. - É simples, basta colocar um pouquinho disto aqui na parede e digamos que pedras voarão.
- Flitch, você acha que queremos chamar mais atenção ainda? - exclamou Yorish.
- Você tem uma idéia melhor? - retrucou Flitch.
- Vamos lá Flitch, não temos muito tempo a perder - Alatheu lançou ao ar a ordem final.
Flitch caminhou até a dispensa, e lançando a ampola em direção a uma das paredes fechou rapidamente a porta. Um som abafado foi ouvido, a porta estremeceu, e tudo era silêncio novamente. Quando Flitch reabriu a porta, um vento frio circulou uivante por toda a cozinha, fazendo os cavaleiros se estremecerem em calafrios. Ambos olharam incrédulos para o estrago da ampola. O que viam era uma grande abertura desordenada na parede de pedra, o céu acima, e um grande desfiladeiro tão íngreme, que mais parecia uma tábua reta de pedra naturalmente esculpida. Era hora de saírem de Nindorrel, e desta vez podia ser para nunca mais voltarem.
Yorish e Alatheu rapidamente tiraram seus arpéus e encaixaram nos melhores lugares possíveis, desenrolaram as cordas e deixaram elas cair, mas pela altura em que estavam eles sabiam que as cordas não seriam suficientes. Tinham que arriscar e continuar a partir do ponto em que as cordas terminavam, do jeito que desse.
- Boa sorte meus amigos - falou um Flitch mais confiante.
- Como assim boa sorte? Você não vai conosco? - retrucou preocupado Alatheu.
- Da mesma forma como o raio que cruza os ares sem saber por onde é seu caminho, assim é a corrida das águas torrentes pelos meandros da vida. - falou orgulhosamente Flitch, como se visualizasse a si mesmo em uma pintura de um quadro. Naquele momento histórico, ao alto de uma das torres de Nindorrel, com uma vista inigualável do Vale dos Ventos, com membros da mais alta nobreza da Corsária... A sua imaginação iria vaguear ainda mais um pouco, se não fosse o comentário rústico de Yorish.
- O vento carregou teus miolos?
- Estou apenas querendo dizer que não posso deixar o castelo, pelo menos não agora. - disse Flitch visivelmente emburrado.
- Então que assim seja! Fique em paz, não creio que ninguém tenha visto você nos ajudar, mas ainda assim toda atenção é pouca. Quando o dia amanhecer, Toril será um lugar diferente para viver. Adeus - disse Alatheu, enquanto virava em direção a corda e ensaiava os primeiros passos da descida.
- Você realmente não quer vir? - falou mais uma vez Yorish. Flitch sorriu e balançou a cabeça. Yorish colocou sua mão no ombro do aprendiz. - Fique em paz. Adeus - exclamou o cavaleiro, na medida que ajustava o cesto por entre seus ombros, de modo a deixar a criança mais próxima do seu peito quente, abaixo de seu rosto, e bem vísivel aos olhos.
Desta forma, os Éromes iniciaram a descida na encosta do Vale dos Ventos.

rickardorios
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Re: O Corsariano - A infancia

Mensagem#2 » 03 Mar 2011, 09:08

Descida pelo Vale dos Ventos
O Castelo Nindorrel é construído literalmente dentro de uma escarpa natural. Às suas costas existe o Vale dos Ventos, que florescia magnânimo em cada Estação das Cores, admirando todos aqueles que vinham até Toril com o esplendor de suas vistas naturais. Á sua frente, existe a Estrada das Luzes, com todo o brilho que se pode conferir a uma estrada da realeza. O paredão que dava para o Vale dos Ventos era completamente irregular, com rochas lisas entre rochas sedimentares e rochas duras. A sua cor natural era de um preto vivo, como da noite mais escura, que contrastava bem com o verde das vegetações e o azul do rio do vale. Muitas destas rochas tinham pontas afiadíssimas, que dariam inveja facilmente à Prata Fria, outras eram mais abauladas e largas. A escolha da construção do Castelo de Nindorrel ser nesta posição era estratégica, com a Estrada das Luzes guarnecida, nenhum exército conseguiria escalar esta encosta com tranqüilidade, e estaria sujeito a uma visão perfeita de arqueiros e armas de destruição em massa que estariam na parte superior.
Os ventos castigavam a encosta diariamente, alterando sua forma, destruindo rochas mais sobressalientes, criando novas rochas pontiagudas, tornando muito difícil alguém que já tenha conseguido escalar esta encosta fazê-la novamente pelo mesmo caminho. Não existia uma trilha de subida e descida, e todos aqueles que aventuravam neste desafio sabiam que era apenas uma questão de sorte. A encosta não era curta, mas ampla, e ia muito além do castelo, suportando inclusive as muralhas traseiras de Toril, e prosseguindo muito além delas. Muito menos a encosta era pequena, de tão alta que era causava uma sensação de temor para aqueles que se encontravam no topo, e um desconforto nauseante para todos aqueles que tentavam olhar para sua base. E era esta a encosta em que Yorish e Alatheu precisavam superar.
Três puxões com força na corda foram o suficiente para Alatheu comprovar rapidamente a segurança do arpéu fixado. Ele foi o primeiro a realizar os primeiros passos da decida. Olhou, cruzou as pernas, e com a força do antebraço foi descendo seu corpo cada vez mais rapidamente. Embora a corda fosse grossa e áspera, suas mãos calejadas não ardiam. Yorish repetiu os mesmos gestos que Alatheu, um pouco mais lento devido a criança que ainda dormia tranquilamente. O vento frio castigava as costas dos intrépidos cavaleiros, fazendo com que as placas metálicas de suas armaduras ficassem encharcadas da umidade noturna. Suas espinhas dorsais faziam seus corpos tremerem involuntariamente, e o grito produzido pelo uivo do vento era um agouro indesejável naquele momento. Mas os Éromes estavam concentrados, eles não queriam estar em suas camas quentes, abraçando suas mulheres, ouvindo canções e alegrando seus corações. Não, eles amavam o que faziam. Era ali, naquele momento, que eles se divertiam. Pois ambos, cada um em seus próprios pensamentos, tinham a certeza de que estavam mudando o curso de uma história, da história de sua pátria.
A medida que a descida prosseguia, o topo ficava cada vez mais distante. Já não era mais possível avistar Flitch ou mesmo a fraca iluminação que saia das tochas da cozinha. Tudo era escuridão. A visão não servia para nada nesse instante, apenas o tato e a audição tinham alguma serventia. Regularmente, Alatheu deixava uma de suas pernas balançar e atingir o paredão rochoso, com o intuito de verificar o quão firme as rochas da região estavam. Ele sabia que a corda não iria durar toda a descida, e logo eles teriam que passar pela pior parte do trajeto.
Yorish tentava aquecer a criança lançando toda a sua capa para a frente do seu corpo, desnudando ainda mais suas costas, que a esta altura já estava com princípios de dormência. Enquanto eles desciam, Alatheu tentava deixar sua mente vaguear entre planos e idéias Ele precisava descobrir qual seria o rumo que eles deveriam tomar. Se caminhassem para o sul, iriam cruzar as estradas reais, os vilarejos e as fazendas, o que provavelmente não seria seguro. Muitos seriam aqueles que iriam jurar fidelidade a Félix, o garoto era bom em conquistar corações. E nada melhor que começar um juramento apresentando a cabeça dos últimos Éromes da corsária.
A outra possibilidade era seguir rumo ao leste, em direção a Serata, os penhascos de areia da Corsária, cruzar esta área e ir para o Reino do Levante, onde os bárbaros imperavam suas leis locais. Lá eles podiam facilmente conquistar simpatia de algum líder tribal, como aquela região está sempre em guerra, com certeza dois homens habilidosos em armas seriam bem tratados. Esta parecia ser a opção mais interessante, mas para isto teriam que cruzar a Floresta Calanéia. Ele já havia visitado a Floresta Calanéia anos antes, quando ainda era noivo de Aline, apenas para resgatar uma Talite, um tipo de flor com pétalas que lembram arco-íris que cresce no interior da floresta fechada. Mas ele teve sorte, muita sorte e cuidado.
O interior da floresta não é uma passagem segura, existem elfos selvagens que caçam e vivem naquela região. Nindorrel nunca conseguiu a paz entre os elfos Calaneus e a população da Corsária. Lionel pensou várias vezes em eliminar esta raça, mas havia mais malefícios que benefícios. Primeiro, não seria fácil deslocar um exército dentro do interior da floresta, pois era uma região fechada, onde mesmo a luz do Sol não entrava com facilidade. Além disso, a quantidade de doenças e animais selvagens eram ameaças o suficiente para enfraquecer qualquer guarnição. Por fim, o território era deles, eles caçavam ali, conheciam muito melhor aquela região do que qualquer um dos estrategistas de Lionel. O interior da floresta não valia este esforço, e os elfos não causavam problemas fora dela. Então, assim como seus antepassados fizeram, Lionel ignorou a existência destes seres. Mas agora Alatheu não podia fazer o mesmo, pois o destino o guiaria por lá.
Alatheu estava pensando estas coisas quando seu pé buscou a corda e parou no ar vazio. Chegou o fim, era hora de contar com a sorte. Ele projetou levemente seu corpo para frente e para trás, para ganhar impulso, e se lançou em direção ao paredão. Ainda segurando a corda tentou achar um espaço para segurar com sua mão livre alguma rocha sobressaliente. Tentou uma vez, não conseguiu. Tentou outra, novamente não conseguiu. As rochas eram lisas demais, e não havia espaço suficiente. Tentou uma terceira vez, mas agora com os pés, e pode encontrar um pedaço mais firme. Desajeitadamente ele tentou se apoiar, abrindo os braços contra o paredão, tateando a região e lançando a corda para fora de si. Yorish, que havia parado, esperou a voz do amigo.
- Yorish, não tem jeito, você terá que se apoiar com as costas contra o paredão - falou Alatheu
- Tudo bem - lentamente Yorish girou seu corpo usando a corda como eixo, e repetiu os gestos de Alatheu. Também com os pés ele pode encontrar uma região firme o suficiente para se apoiar. Lançou a corda para longe de si, e tateou pisando a região, tentando reconhecer o terreno.
- Vamos lentamente, qualquer passo em falso nós falhamos - conversou Alatheu.
A rocha achatada que servia como suporte não era grande, na realidade era pequena o suficiente para desequilibrar qualquer acrobata. Era difícil se manter em pé, e muito mais ainda tentar se movimentar naquela posição. Com os corpos colados no paredão rochoso, os dois cavaleiros se esforçavam, friccionando suas peles contra as lascas de pedra a cada passo dado. Por várias vezes, pedras menores rolavam penhasco abaixo, aumentando ainda mais o nível de adrenalina e cautela. Justamente esta adrenalina, em conjunto com o vento que não parava de lançar suas garras gélidas, que impediam os Éromes de sentirem os inúmeros cortes causados pelas rochas pontiagudas que cortavam seus corpos e arranhavam suas armaduras.
Pouco a pouco os Éromes progrediam, tentando fazer suas próprias trilhas, avançando entre as rochas achatadas e evitando, por tateamento, as rochas mais frouxas. Por várias vezes era necessário andar diversos passos em linha horizontal para se conseguir uma melhor posição de descida. Alatheu sempre que podia, arriscava alguns olhares rápidos em direção a base do penhasco, ele ainda não conseguia distinguir bem o ponto em que se encontravam, mas sabia que ainda estava muito alto. O vento era a melhor bússola no momento, pois atingia com mais força as posições mais elevadas.
Mesmo assim o vento era cruel. O seu uivo era tão alto que dificultava a conversa entre os cavaleiros. Cada corrente lançada contra o penhasco fazia as rochas tremerem, e as mais fracas, serem carregadas para longe. Os cavaleiros sentiam estas pequenas rochas atingirem suas cabeças, algumas grandes o suficiente para produzirem hematomas. Mas eles não se importavam. Yorish apenas aproximou mais a criança de seu peito musculoso e quente, para impedir que qualquer uma destas pedras a atingissem. Não havia chuva, mas a umidade era visível, pois a água escorria por entre as placas das armaduras como se os guerreiros estivessem saindo de um mergulho. A respiração incomodava tanto que não permitia o vaguear da mente, que caso contrário, certamente estaria pensando se quem nomeou aquela região como Vale dos Ventos havia passado por esta experiência.
Yorish olhou novamente para a criança, que estava muito bem encoberta, e admirou que ela ainda estivesse dormindo. Enquanto isso os pés de Alatheu, que ia afrente, indicaram que não seria mais possível prosseguir. Não havia mais como percorrer esta trilha, as rochas alargadas haviam cessado. Alatheu tateou desesperadamente em busca de alguma região que pudesse se apoiar e prosseguir, mas mesmo se esticando ao máximo, ele não encontrou nenhum apoio. Encostou frustrado a fronte de sua testa contra a rocha negra, tentando não pensar o óbvio: não havia saída. E ali, em plena descida do penhasco de Nindorrel, açoitado pelo vento mortal, sem esperanças visíveis, que ele teve a melhor idéia de sua vida. Rapidamente ele tentou como pode se agachar e buscou em sua mochila os sacos que armazenavam a ração humana e as frutas cristalizadas.
- O que houve? - comentou Yorish a medida que ia se aproximando.
- Não tem mais jeito, o caminho acabou, precisamos prosseguir de alguma outra forma. - retrucou Alatheu alto o bastante para ser ouvido - e acho que sei como.
Yorish esperou enquanto via o amigo terminando de retirar alguma coisa dos sacos. Eram cordões que apertavam a boca dos vasilhames prendendo o alimento no interior deles. Ele viu o amigo desamarrando da melhor forma que pode suas tornozeleiras e as placas que protegiam seus antebraços. E a medida que ele desamarrava, usava os cordões para fixar as tornozeleiras em seus pés, como se fossem pranchas para as botas. Semelhantemente ele fez em suas mãos com as placas do antebraço. A imagem era grosseira e esquisita, e as garras artificiais criadas lembravam um louva-a-deus.
- Yorish, nós vamos descer direto desta vez – completou gritando acima do vento Alatheu enquanto ainda fixava sua última placa de antebraço em sua mão direita – As junções das placas são afiadas e espero que sejam resistentes, a medida que eu for descendo, use minhas mãos e meu elmo, como base para seus pés.
Yorish olhou incrédulo para o que acabou de ouvir. "Que idéia maluca", pensou consigo mesmo. A chance daquilo não dar certo seria altíssima, ele provavelmente se desequilibraria, ou Alatheu não suportaria o peso dos dois Éromes mais suas armaduras apenas com a força do seu braço e pernas. Tentou encontrar alguma forma de demover o amigo desta insanidade, até que vendo Alatheu estocando com força as suas garras artificiais, percebeu que não havia jeito. Para situações desesperadoras, medidas extremas são necessárias. E aquela era uma medida extrema.
Não foi difícil perfurar a rocha, naquela região em que as pedras alargadas terminaram, as rochas sedimentares tinha a predominância. O difícil foi conseguir se equilibrar e ensaiar os primeiros passos. Alguns minutos se passaram até que Alatheu conseguiu ajustar suas garras ao que ele esperava. E começou a descer, até ficar em um ponto suficientemente baixo para permitir que seu elmo e mãos fossem usados como base para os pés do seu amigo. Yorish se apoiou com muito cuidado, levando vários minutos antes de confiar completamente os dois pés: um em uma das garras presas na mão de Alatheu, e outro no topo do elmo do Érome. Alatheu então retirou sua mão livre e a estocou mais embaixo, fazendo o mesmo com os pés, e esperando Yorish usar sua mão que estava livre como sua nova base, enquanto descia lentamente todo o seu corpo.
Alatheu suava, mas desta vez não era um suor da umidade do vento, era um suor do esforço gerado pelo movimento. Seus dentes rangiam, e pressionavam uns contra os outros, como se um ferro quente marcasse suas costas. A dor era intensa, e o esforço ainda maior. Nesta hora Alatheu usou sua experiência e todo o conhecimento que aprendeu ao longo de seu treinamento e livrou sua mente da dor. Parou de pensar nela. Parou de pensar na situação. Ele apenas visualizou a base do penhasco, e a si mesmo andando novamente. E continuou a descida.
Yorish fazia o possível para se equilibrar. Pisava com os dois pés no elmo de Alatheu, enquanto trocava a base de uma mão presa para uma mão livre, permitindo que Alatheu estocasse as garras mais embaixo. A descida prosseguiu, lenta, dolorosa, mas vitoriosa. Desta maneira heróica, quando o sol estava aparecendo, e a hora da terça descendente começava um novo dia, os Éromes atingiram o chão da base do desfiladeiro. Ensangüentados, doloridos, exaustos e vivos.
Já era possível ver as duas luas se afastando do sol e os primeiros raios solares tingindo toda a planície do vale com uma coloração cálida. Alatheu olhou para suas placas de armaduras usadas como garras e sentiu com desgosto a idéia de que elas estavam inutilizáveis. Não era apenas arranhões, ou a retirada do polimento natural das peças, mas principalmente porque estavam deformadas. A força dos golpes dados contra o rochedo deformou a estrutura original das placas, onde agora era possível ver uma massa de metal disforme, com achatamentos e abaulamentos espalhados por todas as partes. Alatheu se aproximou do rio, molhou seu rosto suado, e lavou suas mãos ensangüentadas, que estavam em carne viva.
A sensação de ardência na região o despertou ainda mais, ele não dormia já tinha mais de uma eclipse e ainda assim não se sentia sonolento. Provavelmente os últimos acontecimentos afetaram o inconsciente do corpo do Érome. O mesmo no entanto não acontecia com Yorish. O mais jovem dos Éromes ajeitou a criança em seu cesto, ajoelhou, e lavou seu rosto; que ainda continha o sangue, agora já enegrecido, do guerreiro de olhos amarelados. Ele estava visivelmente cansado. E mesmo o frescor da água pura do rio pôde levar adiante seus medos e preocupações. Claro que ele sabia o que ser um Érome representava, mas ele não esperava confrontar com essa dura realidade, e ser um dos últimos de sua classe, tão cedo na sua vida.
- Yorish coma alguma coisa. Um pedaço de carne defumada e algumas frutas vão lhe fazer bem - conversou Alatheu, enquanto arrancava um pedaço de pano de suas roupas embaixo da armadura para enfaixar suas mãos esfoladas.
Yorish não respondeu, ficou com o olhar perdido no verde da planície, e nas figuras um tanto distantes das árvores da Floresta Calanéia. O barulho da água corrente pluvial, por mais doce que fosse, não acalmava o espírito turbulento de Yorish. Como se pressentisse o pior, a sua alma se preenchia de tristeza. Alatheu percebeu isso e tentou resgatar a mente do amigo
- Engraçado como Erick ainda dorme - disse despreocupadamente Alatheu - mesmo depois de tudo o que passamos ele ainda está ali, quieto, tranquilo, como se dormisse em seu berço.
- É verdade, o garotinho tem fibra muito antes de aprender a falar - riu levemente Yorish, confortando seu coração com a imagem da criança.
- Pois é - disse Alatheu segurando firme o ombro de Yorish - ele tem fibra. Agora me ajude a encher estes cantis, na pressa não me lembrei de colocar água neles - complementou Alatheu retirando dois pares de cantis grandes de sua mochila.
- Os meus já estão cheios, eu ia sair ontem para Macal, queria participar do ringue de combate lá. Dizem que guerreiros da Péris irão lutar, e eu queria testar minhas habilidades contra eles - comentou Yorish em um tom mais descontraído. - E você sabe como eu odeio beber qualquer coisa que eu não saiba como foi lavado.
- Claro que sei, sua mãe lhe ensinou como ser fresco - gargalhou rapidamente Alatheu.
- Não é frescura - disse contrariado o jovem Érome - é higiene. Basta observar os rufiões da taverna da Laurápia e você vai ver como é a boca deles, cheia de pus e feridas. Longe de mim ter algo assim em meu rosto.
- É... é... é... Eu me esqueci que você deixou uma fila de garotas apaixonadas por você em Toril, reputação a zelar não é? - disse, ainda sorrindo, Alatheu.
- Sem comentários - retrucou Yorish.
- É melhor irmos, temos uma longa jornada pela frente. - comentou Alatheu, alterando subitamente seu estado de espírito.
Yorish e Alatheu comeram rapidamente algumas frutas cristalizadas, deram uma nova observada em Erick, e como o garotinho ainda não havia acordado, eles continuaram a caminhada. O rio não era muito largo, era mais estreito que o normal, e também não era fundo, mas era rápido. Suas correntes eram tão fortes que atravessar o rio seria pedir para ser derrubado por um ogro. Eles não podiam atravessar o rio a pé, nem nadando, principalmente porque não podiam correr o risco de afogarem Erick. Alatheu e Yorish caminharam em silêncio por toda a borda do rio. Apesar dos primeiros raios solares invadirem toda a região, ainda era possível ver entornos escuros das sombras noturnas das pequenas macieiras ao redor.
O rio possuía algumas pontes ao longo de todo o seu leito e cada uma delas era conhecida como Ponte das Correntezas. Eles sabiam que Félix provavelmente iria colocar um punhado de homens nestas pontes, para investigar todos os que estavam saindo e entrando na cidade. Mas como eles desceram por um lugar inesperado, Alatheu tinha esperanças de não encontrar ninguém que vigiasse a ponte mais próxima. E exatamente como ele presumiu, aconteceu. Assim que eles avistaram uma ponte de madeira rústica, ele pode perceber que ninguém estava lá vigiando. Provavelmente porque aquela ponte não era usada regularmente, dava para se perceber a falta de manutenção do lugar, limos espalhados em diversas partes da madeira, troncos de suporte caídos no rio. O chão da ponte estava escorregadio, e muitos buracos eram vistos por toda a estrutura. Literalmente esta ponte das correntezas já deveria ter sido levada pela força das águas, mas ainda se mantinha de pé, desafiando a força da natureza. Não demorou muito e eles conseguiram cruzar a ponte, um pouco mais de caminhada pela planície verde e chegariam as primeiras árvores da Floresta Calanéia.
A Estação das Cores deixava tudo mais colorido. O que era verde, ficava ainda mais verde. Mas com o final desta temporada vinha a Estação da Seca, e alguns sinais já eram evidentes na paisagem. Como se toda a natureza desse o seu melhor de uma só vez, a Estação das Cores intensamente surgia, e quando ela se cansava, começava a desaparecer o brilho desta força súbita, e a surgir os efeitos do cansaço deste esforço. Em várias partes já dava para perceber gramas amareladas e mortas. Algumas Macieiras já possuíam frutos podres, e muitos deles já estavam espalhados pelo chão.
Algumas árvores menos frondosas já apresentavam um ou outro galho sem folhas, balançando com o passar do vento. A medida que eles caminhavam, podiam perceber claramente estes detalhes, pois o campo era aberto e largo, e diante de um tapete verde uniforme, distinguir estes contrastes era evidente. Alatheu teve leves lembranças das festividades que de tempos em tempos Lionel dava nestes campos. Corridas de cavalos, música, carne e bebida em faturas, mulheres dançando com seus maridos, crianças lançando pedrinhas para acertar as maçãs. Tudo isso vinha com saudosismo ao coração do Érome, como se ele estivesse certo de que nunca mais passaria por estas experiências novamente.
E foi ainda pensando nestas coisas que as primeiras árvores da Floresta Calanéia apareceram. Elas eram grandes, muito maiores que as macieiras, e de perto pareciam colossais. Apenas uma árvore dessa era capaz de construir meia dúzia das Pontes das Correntezas. Suas copas ainda estavam verdes, muito verdes, mas não havia frutos. Não eram árvores frutíferas Eram árvores tão altivas que davam a impressão que olhavam para o vale com desdém, como se não entendessem aquela fraqueza. Esta visão atemorizaria qualquer estrangeiro visitante a Toril, e por muitas vezes, pintores de reinos distantes vieram criar quadros que mostrassem a exuberância destas árvores. Mas os cavaleiros não se impressionavam, eles já a conheciam bem a ponto de adentrarem na floresta sem maiores surpresas.
A primeira vista a floresta Calanéia era atemorizante devido ao contraste entre a imponência de suas árvores e a natureza ao redor. Mas a medida que se caminha dentro dela, esta sensação ia diminuindo, especialmente porque mais e mais árvores iam surgindo, a ponto de tornar toda a região ao redor dos cavaleiros recheadas de troncos grossos e escuros. As copas das árvores eram elevadas, não se podia tocar nelas, e raros seriam aqueles que se arriscassem uma subida não sentiriam vertigem devido à altura.
Suas folhas eram do tamanho de pés humanos, enervadas aleatoriamente, enfeitando a passagem com um verde vivo que brilhava com o bater da luz do sol. Toda a região cheirava fortemente a madeira, mas não era um cheiro incômodo, na realidade era um cheiro suave, quase que hipnotizante. Qualquer pessoa que não tivesse medo de cobras dormiria tranquilamente entre aquelas árvores. Mas as cobras da região eram mortíferas. Como cipós, muitas pendiam da copa da árvore até o mais baixo ponto possível, e se camuflavam, balançando entre os verdadeiros cipós. Quando suas presas passavam desapercebidas embaixo, apenas dois movimentos eram necessários para a caçada: o bote e o estrangulamento.
Muitas formigas também faziam suas tocas, não no chão como de costume, mas no pé dos troncos. Elas perfuravam a madeira e faziam do seu interior mini labirintos sem fim. A seiva das árvores era doce e nutritiva, e poderia alimentar tranquilamente um homem que soubesse o processo de extração. Algumas formigas eram pretas, e possuíam pinças desproporcionais em suas cabeças. Eram formigas agressivas, que atacavam sem medo, quem quer que ousasse passar por elas. Dentro desta espécime, existiam algumas com uma coloração azulada que recebiam o nome de Pilão, mas eram raras, e muito valiosas. Os Pilões são comumente esmagados e misturados com água fervente, levantando um forte cheiro afrodisíaco no ar. A maior parte dos reinos externos consideram este cheiro uma iguaria impar, tanto que seu uso é comum apenas entre reis e suas rainhas.
Mas nenhum dos dois cavaleiros pensava nestes assuntos enquanto caminhavam a passos largos por entre as árvores. Já fazia vários momentos que eles tinham deixado o pé do desfiladeiro, e provavelmente já estavam próximo da hora da terça linha, quando as duas luas se encontram nas duas posições mais baixas do céu diretamente opostas uma a outra, formando com o sol, vértices de um triângulo celestial. Erick já havia acordado, e em seu cesto olhava deslumbrante a floresta. Algumas borboletas pousavam em seu manto, mas levantavam vôo novamente antes mesmo que ele conseguisse tocar em algumas delas. Eram lindas borboletas, muitas delas coloridas como se fossem feitas por um pintor.
- Yorish, vamos dar uma descansada aqui, comer alguma coisa e alimentar o Erick - exclamou Alatheu.
- Olha só, aquela ali não tem cipós - disse Yorish apontando uma árvore mais fina que as demais a alguns passos a frente - eu não faço a menor idéia do que iremos dar para Erick comer.
- O jeito é improvisar, não podemos dar carne nem frutas para uma criança com meses de vida, e água não vai alimentar o suficiente - respondeu Alatheu.
- Tem alguma sugestão? - perguntou Yorish.
- Seiva. Vamos retirar um pouco de seiva e ver se fazemos ele bebericar. - disse Alatheu, enquanto retirava uma pequena faca e começava a fazer cortes cirúrgicos no tronco.
- Alatheu, eu acho que estas folhas podem ajudar - se prontificou rapidamente Yorish, dando ao mais experiente Érome a oportunidade de alimentar Erick.
Alatheu então cortou a árvore delicadamente na forma de um xis, fazendo uma perfuração mais profunda no centro do corte. Pegou a folha verde que Yorish havia achado no chão, e mais algumas outras secas ao redor. Guardou as secas em sua mochila, lavou a verde com um pouco de água do cantil, e a enrolou como se fosse um canudo, mas com um de seus lados formando um feche que impedia o escorrimento e possibilitava o armazenamento da seiva. Alguns instantes depois, um líquido leitoso começou a se reunir no ponto central do xis, escorrendo o filete em seguida para dentro do reservatório improvisado.
Assim que o pequeno reservatório foi todo preenchido, Alatheu cuidadosamente aproximou dos finos lábios de Erick, abrindo o reservatório milimetricamente, liberando gotas que caiam a medida que Erick sentia o gosto da seiva. A criança não chorou, nem reclamou, apenas fazia leves movimentos se batendo no berço, e sorrindo toda vez quando o excesso do filete adocicado fazia cócegas em suas bochechas rosadas. Alatheu ria em retribuição, e pensava tristemente o porque nunca quis ter filhos. Na verdade, não era uma questão de querer, ele e Aline haviam tentado várias vezes, mas não aconteceu. O acaso afeta a todos, e ele não havia sido abençoado com uma criança. Era em momentos como este, que Alatheu percebia que tinha coisas importantes pelo qual ele gostaria de passar antes de morrer. Se é que um Érome poderia se dar ao luxo de pensar desta forma. Sem sombras de dúvidas ele não pensaria duas vezes entre dar sua própria vida se isso significasse salvar Erick.
- Alatheu - Yorish chamou a atenção do cavaleiro mais velho.
- Diga.
- Desde que descemos o despenhadeiro de Nindorrel, eu não tenho como deixar de pensar. Não morremos por pura sorte. As garras poderiam ter se partido, você podia ter tido câimbras, o vento podia ter nos desequilibrado. E uma queda daquela altura... Eu tentei afastar minha mente, concentrar apenas no que se está fazendo, como em nossos treinamentos. Mas vivenciar aquilo, sentir aquilo, olhar para o rosto da morte. Não é fácil. E, se eu ou você morrermos ao longo do caminho? Como vai ser? Seus pensamentos não te incomodam com estas questões? - inquiriu Yorish.
- Claro. O tempo todo. Mas se tem uma coisa que eu aprendi é que não adianta se preocupar com aquilo que está fora do controle. É nossa responsabilidade dar o nosso melhor, e deixar que o criador de todas as coisas determine o resultado. É como numa batalha, com a diferença de que agora o sangue está frio e nosso emocional nos prega truques bizarros. Na luta, você não pensa no que vai acontecer amanhã, você só tem sentidos para o seu oponente e para o campo de batalha. Tudo o que você sabe é que precisa sobreviver, e todo o seu corpo age muitas vezes por instinto. Para te dizer a verdade, ainda não pensei sobre a morte de Lionel. Eu acho que não quero pensar. Ele foi mais que um pai, um rei, um senhor para mim. - falou vagarosamente Alatheu.
- É, eu sei. Lionel era um homem bom. Eu ainda me lembro de seus olhos castanhos claros olhando diretamente para os meus, e um sorriso largo afastando sua barba já grisalha, quando me deu minha espada e a glória do meu titulo.
- Sabe - continuou Yorish - Não queria morrer sem antes provar meu merecimento, sem participar de aventuras e conquistar territórios para a Corsária. Desde criança, meu pai me contou histórias dos grandes Éromes antigos. Eu já sabia o que queria ser desde muito pequeno. Eu queria brandir esta espada aqui - falou Yorish dando palmadas na lâmina de sua arma - e ouvir os gritos do calor da batalha. Eu sempre soube que nasci para a guerra. Sempre soube. Mas acho que estou com receio.
- Não pense nisto - falou rapidamente Alatheu - Olhe ao seu redor, olhe quanta exuberância da natureza. Quantos anos e histórias você acha que cada uma destas árvores já presenciou? Todas elas são fortes e conseguiram sobreviver a Estação das secas, da tempestade, da nevasca, ano após ano. Elas conseguiram fazer isto pois este solo - complementou Alatheu enquanto batia com suas botas na terra - é bom. Você é um Érome. Uma árvore milenar plantada em solo bom.
- É, eu sei. Minha consciência sabe. São apenas pressentimentos...
- Não são pressentimentos. Sua mente controla suas ações. Você está se deixando levar pelos anseios da juventude. Pare de pensar no futuro, se concentre no agora. Olhe para Erick, esta é sua aventura, este é o seu dever para com sua pátria.
- Claro, bobagens minhas. Vamos continuar, ainda temos muito que caminhar antes do anoitecer. E a essa altura, Félix já deve ter visto o estrago na sua cozinha, as cordas, e sabe que você está vivo. Ele virá atrás de você, não deixará ninguém leal a Lionel vivo.
Alatheu assentiu com a cabeça enquanto levantava. Os cavaleiros comeram algumas frutas cristalizadas, e continuaram a caminhada em passos largos. O suor incomodava, o vento soprava pouco com tantas árvores ao redor servindo de barreira. Os antebraços descobertos de Alatheu já estavam vermelhos de picadas dos insetos. Até mesmo Erick já possuía alguns pontos de vermelhidão devido aos mosquitos. Yorish fazia o que podia para afastar as inconvenientes criaturas voadoras, mas algumas passavam desapercebidas.
Logo anoiteceu e a hora do fogo decrescente começou. Eles combinaram entre si uma divisão simples de turnos. Yorish faria o primeiro turno, e quando desse a hora da lua alta, Alatheu assumiria até o amanhecer. Desta maneira os cavaleiros prosseguiram sua jornada. A cada eclipse solar passado, Yorish e Alatheu tinham menos assuntos para conversar. O clima foi ficando mais pesado, e o espírito dos cavaleiros mais abatido. Não demorou muito para as frutas e as carnes acabaram, e apenas algumas rações humanas restaram para todo o percurso até o Reino do Levante. Para economizar alimentos, eles evitavam comer muito e se nutriam com a seiva das árvores. Não era ruim, dava energia, mas para uma constituição física do Érome, era como se eles sentissem a força de seus músculos se esvaírem pela falta de carne. Não podiam caçar, tinham que passar por aquela região o mais silenciosamente possível para evitar infortúnios.
Então a 15º eclipse, após a descida pelo despenhadeiro, cedeu lugar a claridade de um novo dia. Mais algumas eclipses e eles conseguiriam atingir a borda leste da floresta, alcançando a região dos matos altos, conhecida entre os corsarianos como Talautos. Ali, Alatheu pretendia ganhar velocidade em sua viagem pois o mato poderia servir de excelente cobertura e os cavaleiros poderiam acelerar os passos sem temerem tanto o descuido. Alatheu ainda estava sentado em uma pedra próxima, quando Yorish se levantou de sua cama improvisada com folhagens próximas.
- Bom dia - saudou Yorish.
- Bom dia, você está péssimo, tem folhas grudadas em todas as partes de sua armadura - disse rindo Alatheu.
- A culpa é daqueles elfos malditos, se eles não vivessem aqui eu não iria dormir usando estas placas. Durmo mal e acordo pior ainda - falou Yorish - Você pode dar uma olhada em Erick? preciso ir a algum banheiro, se é que nós podemos achar algum "banheiro" neste lugar.
- Claro, só toma cuidado com os cipós, você não gostaria de ser mordido em alguns lugares delicados - disse Alatheu, rindo ainda mais audivelmente.
Yorish não se afastou muito quando foi derrubado por um cipó que laçou suas pernas. Mas não era um cipó qualquer. Era um cipó com pedras em suas pontas, firmemente amarradas. Caiu de rosto ao chão, completamente desprevenido e desequilibrado, com as duas pernas amarradas e juntas pela arma rústica. Barulhos como de zumbidos e gritos guturais foram ouvidos em todas as direções.
Com a forte queda, Yorish sentiu seu peito esmagado com o choque da armadura contra o chão. Sua respiração subitamente ficou forte, fazendo as folhas ao redor se aproximarem de sua boca. Ele girou seu corpo e tentou entender o que estava acontecendo. Muito antes de começar a pensar, sobre ele já estavam caninos ferozes indo de encontro ao seu pescoço. Instintivamente, com as duas mãos, ele segurou o focinho da estranha criatura. Parecia um lobo, com pele marrom clara, e olhos doentios. A criatura tentava a todo o custo se desvencilhar das mãos do Érome, e seu hálito asqueroso deixou Yorish tonto.
O Érome não teve muito tempo para reagir com eficiência, antes mesmo de ele perceber, uma segunda criatura vinha pulando rapidamente em sua direção. Com ímpeto, Yorish forçou o focinho da criatura contra o chão e a derrubou, pegou sua faca curva, cortou os cipós que o prendia, e quando a nova criatura se precipitou no bote, encontrou no caminho a lâmina da faca do cavaleiro. A criatura caiu ao chão, morta, com o rosto perfurado. Mas a primeira já tinha se recuperado do tombo e rompeu em fúria mirando o braço do Érome. A força da mordida rasgou a malha que protegia as costas do braço do cavaleiro, liberando sangue e pele da região. Com as patas cravadas de unhas grossas e afiadas, ela novamente foi em direção ao rosto do cavaleiro, que conseguiu se esquivar do primeiro, mas não do segundo ataque, tendo uma das laterais de sua face escoriada intensamente. A dor de ambos os golpes não foi o suficiente para impedir o que veio a seguir.
Yorish rolou pelo chão, pegou seu escudo que havia caído, e se protegeu do próximo ataque, fazendo o lobo da floresta morder aço. Quando a criatura recuou, deu a Yorish o tempo para um chute com intensidade em sua face, fazendo a criatura cambalear. Era todo o tempo que ele precisava, ainda no chão, se colocou de joelhos, e com um só golpe de sua espada decepou a cabeça do lobo, que rolou pela terra.
Foi exatamente neste momento que uma lasca de madeira cruzou o ar e acertou o pescoço de Yorish. Não era uma lasca grande, se assemelhava a um alfinete. Instintivamente, Yorish levou sua mão ao local que começou a latejar de dor. Ele sentiu ainda mais tonto, como se estivesse querendo desmaiar. Mas lutou contra isso e se pôs de pé, quando avistou uma outra criatura menor do que ele a distância. Ela era negra, não tinha cabelos, seus olhos eram brancos, e seu braço girava ao ar. Tinha a mesma arma que o derrubou. Yorish não parou para pensar no que era, com um só movimento, jogou sua faca contra a criatura. Com toda a velocidade, e girando, a faca encontrou o rosto da criatura que caiu para trás com o golpe, lançando sua rústica arma ao chão.
Yorish respirou profundamente antes de olhar para as suas costas e perceber quatro criaturas correndo em sua direção, com armas que lembravam clavas, mas com pedras encravadas, que de tanto afiadas eram lustrosas. Ao mesmo tempo, outras três surgiam das árvores a sua esquerda, e mais outros três vinham da sua direita. Ele estava cercado, com furiosas criaturas correndo na ânsia de conseguirem o primeiro golpe contra, o que lhe pareceu ser, a presa para o jantar.
Mas foi a vez de Alatheu se precipitar. Folhas voavam rapidamente. Muitas folhas. Um vendaval de folhas girava aleatoriamente por todos os lados, com diversas cores, ao redor de Alatheu. Mas ele não se importava. Ele não se importava com o estranho vento que subitamente começou a surgir naquela região. Não ouvia o barulho intenso das copas das árvores acima, que faziam suas folhas caírem e serem carregadas pelo vento. Tudo o que ele estava concentrado era em atacar as quatro criaturas que iam em direção ao amigo. Ele estava curioso porque apenas Yorish havia sido atacado. No entanto ele iria descobrir depois que arruinasse aquelas criaturas nojentas. Ele correu segurando a Prata Fria com suas duas mãos e investiu de uma só vez contra as quatro criaturas. Ele já conseguia ver nitidamente a face delas. Completamente cheia de cicatrizes, lábios tortos, narizes curvados, orelhas pontiagudas. Ele via a face de seus inimigos e já sabia onde iria atingir primeiro. Alatheu brandiu sua espada com fúria.
- Aaaaaaaahhhhhh... – gritou o cavaleiro.
Os elfos viam em direção a Alatheu, já estavam perto demais, e estranhamente não reduziram a velocidade nem se prepararam para receber o ataque. Continuaram correndo em direção a Yorish. Eles não se interessaram com a presença de Alatheu, muito menos se atemorizaram com o grito, com o brilho da Prata Fria tão perto de seus rostos. Nem com a face furiosa de um guerreiro sem armaduras nos braços. Não. Eles ainda estavam com suas clavas erguidas. Foi quando Alatheu desceu sobre o primeiro elfo, sem pensar ou sentir, girou seu corpo atacando o segundo e ergueu a Prata Fria contra o terceiro, tudo em um só movimento.
Mas foi aí que algo estranho aconteceu. Algo bizarro e inesperado. Prata Fria cortou os ares, Alatheu ouviu o barulho do brandir de sua arma, mas seus punhos não sentiram o golpe. Seus braços já preparados não ampararam a resistência dos corpos das criaturas ao seu ataque. Nenhum grito de inimigo atingido. Nenhum rancor de ódio. Nenhum contra-ataque desesperado. E quando ele menos esperou, os elfos não estavam mais a sua frente. Eles deveriam ter se chocado. Alatheu deveria ter atingido seus inimigos, e os elfos deveriam ter golpeado o cavaleiro. Mas nada disto aconteceu. Eles passaram entre si, e Alatheu não pôde parar as criaturas.
Estonteante, Alatheu gira seu corpo novamente, enxergando um Yorish sendo cercado, e lutando contra dez guerreiros ao mesmo tempo. O Érome, apesar de jovem, era esperto. Ele se aproximou de uma das árvores com troncos grossos e cobriu suas costas. Brandiu sua espada contra o primeiro que se precipitou, cortando a arma do Elfo, e com um chute o empurrou para longe. Eram movimentos que já não mais obedeciam a orientação de Yorish. Era instinto. Calor. Energia. Sobrevivência. O segundo golpe, Yorish usou seu cotovelo contra o elfo que tentou vir pelo seu flanco. Atingiu em cheio o rosto da criatura, mas sentiu ao mesmo tempo um forte golpe de clava contra suas costelas. Sem levar a mão ao local, girou sua espada contra o atacante que o golpeou, cortando a criatura de cima a baixo, em um só movimento, deixando o corpo dela estirado aos seus pés.
Antes mesmo do defunto cair ao chão, duas novas clavas já desciam contra seu rosto. Yorish se desviou da primeira, mas a segunda atingiu seu rosto com tanta ferocidade que ele sentiu sangue jorrando de seu nariz. Com seu ombro e escudo, realizou um movimento de impulso para trombar contra os corpos dos dois elfos de uma só vez. Foi bem-sucedido. Ambos caíram ao chão. Mas não tão rápido a ponto de evitar um novo golpe, que veio de seu flanco, fazendo sua perna arquear e o braço de seu escudo pender para baixo. Yorish só teve tempo de cravar sua espada furiosamente contra o autor do novo ataque, e sua fúria foi tão intensa, que a sua espada trespassou a criatura, e ele teve que usar de uma força sobrenatural para arrancar sua espada do corpo do elfo, que caiu logo em seguida. O próximo golpe, Yorish não teve tanta sorte. Com um ataque de baixo para cima, um dos elfos que havia sido derrubado, acertou o queixo do Érome que caiu com força e zoada ao chão.
Alatheu correu em direção e começou a jogar seu corpo contra os elfos. Yorish estava cercado com oito criaturas em pé, chutando ele. Alatheu se projetava, mas a cada golpe que ele dava, passava pelo corpo das criaturas e nada fazia. Era como se ele ou o que ele estava vendo fosse um fantasma. Ele desejou que estivesse sonhando. Ele então passou a ouvir o barulho do vento ao seu redor e o farfalhar das folhas. Se fosse um sonho era real demais. Ele olhou rapidamente para a pedra onde deixou o cesto de Erick, ele ainda estava lá. Olhou ao redor e discernia dois lobos caídos, mas entre as árvores ele também conseguia ver mais duas criaturas com zarabatanas prontas para atirar. E no meio das duas um guerreiro alto, forte, e diferente dos demais.
Este guerreiro não usava clavas. Ao redor do seu peito tinha um cinturão com dardos grossos que a distância pareciam ser feitos de ossos, pois eram brancos como a neve. No seu pescoço havia um colar, com três presas de cobras nele. O rosto do Elfo era uma parede. Frio, e completamente concentrado, como se ele estivesse diante de um leão esperando por um bote. Em uma de suas mãos, se encontrava abaixada mas pronta para um ataque, uma espada também branca. Esta espada era fina mas lustrosa. Ele apenas observava a luta covarde entre oito de seus guerreiros e o cavaleiro. O elfo já havia visto dois dos seus caírem, sem esboçar nenhuma reação emocional.
Yorish estava recebendo chutes por todos os lados e ganhando hematomas. Com sua mão esquerda, ele segurou o pé de apoio de um dos elfos, e com um puxão derrubou a criatura. O movimento fez os nervos da lateral do seu corpo tremerem, pois o braço ainda estava muito ferido pela mordida do lobo. Yorish não queria saber. Não se importava. Agora era coração e alma. Ele aproveitou a queda do elfo para se lançar de costas contra a árvore, e usando ela como apoio, fez novamente o movimento da trombada contra os oponentes a sua frente. Desta vez funcionou. Ele passou pela barreira das criaturas, e caiu ao chão em seguida, mas não desequilibrado, pois com uma cambalhota já conseguiu ter uma visão renovada da luta. Ele olhou para os elfos com fúria, cerrou seu punho direito que segurava sua arma, e avançou contra elas. Ele quase não sentiu quando uma nova lasca de madeira atingiu seu ombro esquerdo, fazendo um lado do seu corpo querer entrar em dormência. Ele só queria saber de danificar ao máximo as criaturas que o atacaram.
O primeiro golpe foi certeiro, e derrubou mais um elfo. O segundo golpe fez outro elfo comer folhas, morto. No terceiro golpe, seu braço fraquejou, e Yorish encontrou duas clavas que o bloquearam. Os elfos chutaram ele nas pernas, o que fez o cavaleiro ajoelhar, e deram mais um novo golpe no rosto completamente desfigurado do Érome. Os cabelos loiros do cavaleiro estavam marrons de tanta terra grudada neles. Yorish girou para a lateral evitando os pontapés e chutes. Levantou novamente, e estocou sua espada no elfo mais próximo, que desviou do golpe. Tentou brandir contra o elfo que estava em sua lateral, que também pôde desviar do golpe. Enquanto isso, uma nova lasca de madeira atingia suas costas, ele sentiu seu corpo tremer involuntariamente, como se fosse um calafrio. Mas seu coração não o deixava parar. Como um cego, ele começou a golpear o que estava próximo. Apenas atingindo vento.
Alatheu já estava desesperado, começou a lutar contra o ar, tentando em vão atingir os elfos. Ele estava ali, do lado do amigo, se esforçando inutilmente para o socorrer. Ele tentou se jogar a frente do amigo para receber os golpes, mas não funcionou. Alatheu se sentia invisível, como se fosse um fantasma. Ele tentou gritar para Yorish, tentou falar incentivos para aquecer o coração do Érome, tentou mostrar a Yorish que havia esperança. Mas o cavaleiro não ouvia. Um novo elfo se aproximou, e com um novo golpe de clava tentou afundar o crânio de Yorish. Mas o jovem cavaleiro se desviou, e não perdoou o ataque, com sua espada feriu mortalmente seu oponente, e o quinto elfo jazia morto ao chão. Os demais guerreiros, vendo seu amigo caído, deram um passo atrás, mas um som forte e gutural foi ouvido, e eles enrijeceram novamente, e se lançaram contra o Érome. Yorish já estava desorientado, mas seus instintos reagiam por si. Mais um elfo veio de encontro a sua lâmina, o sexto caia a seus pés. O sétimo elfo tentou acertar suas costas, mas também encontrou a lâmina de Yorish, e caiu dilacerado ao chão. Só restavam mais três, quando uma quarta lasca de madeira atingiu as dobras de suas pernas.
Yorish cai, e rasteja.
Os elfos voltaram a se animar, e tentaram ensaiar novos chutes contra o cavaleiro caído. Yorish não conseguia mais pensar em nada, já não tinha mais controle. Em meio a chutes, ele tentou se levantar. Todo o seu corpo ensangüentado e roxo. Tentou correr a esmo. Tropeçou uma vez. Se levantou. Tropeçou novamente. Mais uma vez se pôs de pé, e com todo o resto de suas forças correu, largando sua espada e escudo para trás. Ele não sabia o porque corria. Um Érome tem que morrer lutando. Um Érome não fugia da batalha. Sua mente sabia, mas seu corpo não queria morrer. Era involuntário, ele corria atrapalhado para a frente.
De longe Alatheu chorava em angústia, ele não conseguia agir. Não havia nada que ele pudesse fazer. Ele ainda gritava pelo amigo, mas não ouvia resposta. Yorish continuava correndo, cambaleante. Seus pés não conseguiam parar. Todo o seu corpo tremia. De longe, os elfos pararam. Não o perseguiam, nem gritavam mais. Apenas observavam. O elfo líder finalmente esboçou alguns passos a frente e caminhou. Yorish suava e sangrava. Ele não conseguia mais enxergar direito, os hematomas estavam tão inchados que forçavam seus olhos a estarem fechados. Um dos seus pés vacilou, ele arqueou, e caiu. Rastejou alguns passos, e se levantou novamente. Tentou correr e não conseguiu. Sentia sua vida sair de seu corpo, sua pele ficar fria, seus batimentos desacelerarem. Mas ele não iria se entregar. Não enquanto no rei houver vida. Ele tinha que lutar. Caminhava com os pés arrastando agora, deixando um rastro de sangue entre as folhas, como um animal ferido. E foi com um passo que Yorish foi erguido.
Tudo aconteceu muito rápido. Yorish rastejava quando pisou em uma armadilha que o ergueu furiosamente de ponta cabeça. Agora ele não conseguia mais caminhar, só respirar. Não enxergava direito, e seus ouvidos já não ouviam os sons ao redor. Os seus cabelos esbeltos pendiam sujos ao ar como palhas. Ele respirava com dificuldade.
- Não Yorish... Não... NNNÃÂÂOOO... gritava desesperado Alatheu.
O elfo líder sabia o que iria acontecer. Ele caminhou lentamente, ainda concentrado no momento. Não esboçou nenhuma reação. Não estava alegre, nem triste. Estava Frio. Desprovido de emoções. Enquanto caminhava em direção a Yorish, seguindo o rastro de sangue todos os outros elfos olhavam atentamente. Ele guardou sua espada devagar, e desabotoou uma das fivelas do cinturão. Tirou dela um dos dardos. Se aproximou mais do Érome. Yorish enxergava apenas uma sombra negra, envolto a claridade da luz da manhã. O cavaleiro balançava de um lado para outro, erguido entre o céu e a terra.
Quando o elfo líder parou a poucos metros de distância. Observou bem a cena. E com rapidez e precisão, lançou o dardo de encontro ao cavaleiro. O movimento foi tão rápido que Alatheu não percebeu a hora em que o dardo foi lançado e o momento em que atingiu o peito do amigo. O projétil perfurou a placa dura de metal e atingiu o corpo do cavaleiro. Os olhos de Yorish se arregalaram, e sua respiração acelerou, reduzindo bruscamente em seguida.
Yorish sentia sua vida sendo sugada. Seus olhos se fechando. Mas ele insistia. Não queria morrer. Não era essa a hora ainda. Ele tinha muito o que viver, queria casar, constituir uma família. Queria cavalgar para fora da Corsária, conhecer as famosas colinas de Áveres, experimentar a excêntrica comida da Péris Oriental, nadar nos rios de cristal de Lys. O Elfo desabotoou uma nova fivela, mas agora ele já estava com leves rugas na face. Talvez em seus pensamentos primitivos ele ponderava o motivo pelo qual esta presa ainda não havia sido abatida. Com o mesmo súbito movimento, Yorish foi alvejado pela segunda vez. A segunda estocada foi tão forte que o impulsionou para traz, aumentando o arco do balanço do corpo do cavaleiro. A boca de Yorish se abriu, e mais sangue saiu de seu corpo.
Todo o corpo do cavaleiro estava pálido agora. Sua respiração já estava lenta e fina. Seu peito já não se movia mais. Seus olhos estavam vidrados, quase que congelados em algum ponto a frente. O Elfo, incrédulo, desabotoou sua terceira fivela, e lançou novamente o dardo de osso. Desta vez foi fatal. Quando o dardo atingiu o peito de Yorish um último suspiro foi ouvido. Um suspiro de lamento e tristeza. E uma lágrima caiu de um dos seus olhos.
Alatheu ainda olhava para o corpo do mais jovem dos Éromes balançando vagarosamente de um lado para outro na árvore. Caiu de joelhos com esse mesmo olhar, porém distante. Os elfos que antes estavam mais afastados se aproximaram de seu líder e conversaram alguma coisa em sua própria língua O líder quase não falou, mas os demais elfos pareciam entender bem as ordens. Um dos elfos recolheu o escudo e a espada do cavaleiro e a entregou ao líder como troféu de sua batalha; um outro pegou a mochila do cavaleiro, e um terceiro cortou a armadilha fazendo o corpo do cavaleiro cair ao chão. Yorish era pesado, sua altura mais a armadura não permitia que qualquer homem conseguisse carregar seu corpo tranquilamente. Ainda mais elfos que se assemelhavam a palitos. Todas as criaturas que restaram vivas tentaram erguer o corpo de Yorish. Eles conseguiram, mas não sem muito esforço. Suas pernas praticamente dobravam ao chão, e era visível que nenhuns deles estavam gostando da experiência. Nenhum dos elfos se interessou com os que haviam caído. Foram largados lá, como objetos sem valor. Sem nem sequer enterrar seus subordinados, o elfo líder deu uma última sondada na região, e com passos ligeiros desapareceu por entre as árvores.
O Érome mais velho ficou lá, parado, sem entender o que aconteceu, desejando ardentemente que fosse um sonho. Mas não era um sonho. Os rastros do sangue de Yorish, antes vermelhos vivos, agora já estavam mais escurecidos e misturados com a terra. Yorish não merecia morrer ali. Ainda tinha muito que viver, e há pouco tempo estava comentando justamente sobre este medo. Não era justo. E ele nem sequer conseguiria enterrar o amigo, conceder as últimas homenagens e o levar para o túmulo de seus antepassados. Yorish não merecia este tipo de tratamento. Com raiva e furor, Alatheu segurou uma pedra próxima e, girando todo o seu corpo, lançou a pedra contra o vento que bateu nas árvores com um estrondo. E gritou. Gritou até que sua garganta ardesse em chamas. Mas o vento misterioso ainda soprava muito forte, abafando o som de seu grito.
Ele estava decidido. Iria dar a Yorish a honra de ser enterrado com dignidade. Alatheu afastou os pensamentos, se levantou com rapidez, caminhou até suas coisas, e se preparou para caçar os elfos. Desta vez, a caça se tornaria o caçador. E foi justamente enquanto ele pensava nestas coisas que algo estranho aconteceu. O vento diminuiu de intensidade e suas folhas começaram a plainar pelo ar. Elas começaram a girar em torno de algo invisível, como se fosse um redemoinho, e uma por uma foi saindo e pousando lentamente no chão. Alatheu olhou assustado, enquanto compreendia o que tinha acontecido. Ali, na profunda parte da Floresta Calanéia, em meio ao chão, as folhas começavam a forma letras, que se juntavam formando palavras, até se tornarem uma frase: "Salve a criança".
O Érome de repente recuperou a lucidez e lembrou de Erick. Olhou para o cesto do garoto, que inofensivamente cochilava alheio ao que acontecia ao seu redor. Alatheu inspirou fundo e com pesar engoliu o choro silencioso em seu coração, pegou uma pedra lisa e afiada, escavou na árvore a insígnia dos Éromes seguida de: "Aqui jaz Yorish Kazenaki, o mais jovem de todos os nobres Éromes corsarianos". Finalmente, segurou o cesto de Erick, e começou a andar em direção oposta aos Elfos. Ele ainda deu uma última olhada para trás, já a distância, registrando o cenário em sua mente como uma eterna pintura.

rickardorios
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Re: O Corsariano - A infancia

Mensagem#3 » 03 Mar 2011, 09:08

Predadores da Noite
Durante o tempo que se passou até sair da floresta, Alatheu tentou afastar os pensamentos sombrios que invadiam sua mente. Não adiantava pensar em Yorish, e por mais que ele se esforçasse em esquecer, a sua mente o enganava, trazendo a sua memória questões sobre o que poderia ter acontecido com o corpo do seu amigo. Apenas a idéia de pensar no que aquelas criaturas selvagens poderiam fazer, embrulhava seu estômago lhe dando náuseas. Então ele tentou manter sua concentração no caminho, observando a tonalidade das árvores ficando cada vez mais clara, a medida que se afastava da região profunda da Floresta Calanéia. Demorou quase cinco eclipses após a morte de Yorish para atingir a saída da floresta e enxergar finalmente a região de Talautos. Durante todo esse tempo, o cavaleiro se alimentou da seiva, e salvou a ração humana, último alimento que lhe restava, para alguma necessidade futura. A seiva obviamente era nutritiva, mas não dava forças ao Érome. Permitia tranquilamente alimentar uma criança do tamanho de Erick. Se Aline pudesse ver Alatheu neste exato momento, veria seu homem velho e acabado, com a pele enrugada, e os braços sem o mesmo vigor de outrora. E apenas dezenove eclipses se passaram desde a fuga de Nindorrel.
A região dos Talautos durante a estação das cores era verde e exalava um cheiro doce de relva amanhecida. Como uma espécie de capim, sua vegetação crescia acima do comum, encobrindo tranquilamente homens do tamanho de Alatheu. Mas agora, durante a estação das secas, esta vegetação ainda se encontrava alta, mas completamente amarelada, e com um odor acre nada agradável. Mas para Alatheu, aquela cena era um alívio. Ele não queria mais se lembrar da floresta Calanéia, e jurou consigo mesmo que se um dia voltasse com vida para Nindorrel, ele formaria uma guarnição e exterminaria aquela raça imunda. Ele mesmo em pessoa iria atrás do líder que lançou os dardos.
Embora os pensamentos de Alatheu fossem vigorosos, seu corpo já sentia o cansaço de caminhar por mais de cinco eclipses sem dormir. Não havia como ele dormir com Erick ao seu lado. Seria muita insanidade não vigiar durante a noite. Então tudo o que o cavaleiro fazia era se encostar em alguma árvore, e economizar ao máximo as energias. Mas seu corpo já sofria com os efeitos, seus sentidos já não funcionavam com tanta acuidade, seus lábios tremiam constantemente, e todo o seu corpo sofria dores constantes. Alatheu então acelerou os passos, com sorte ele chegaria aos Campos Centuriais em cerca de sete eclipses.
Quando a hora do fogo decrescente chegou, escurecendo toda a região, Alatheu cortou alguns matos e fez uma espécie de clareira para aquecer Erick. Ele atritou duas pedras que logo começaram a gerar faíscas consumindo o mato cortado. O fogo não era tão alto, mas diante dos últimos acontecimentos, era um alívio sentir aquele calor. O cavaleiro aproveitou o momento de sossego, e retirou a ração humana de sua mochila. O alimento tinha uma aparência granulosa, e podia ser comido sem o auxílio de água. Não deixava a garganta seca, tampouco pesava o estômago. Era um alimento leve e energético. E era o único alimento que eles tinham naquele momento. Apenas alguns sacos de rações humanas, e ele não podia dar esta comida para Erick. Mas não teve outro jeito, o mato ao redor não era como a seiva de Calanéia, iria fazer mal a um homem quanto mais a uma criança. Alatheu chegou a única solução razoável, ele teria que dar a ração para Erick. "Mas como?", pensou o cavaleiro.
Alatheu tentou improvisar, abriu um dos sacos de ração e misturou um pouco de água em um destes sacos. Os grãos ficaram boiando, sem muita aderência. Ele então fechou novamente, pegou algumas pedras, e começou a amassar o saco da ração, empurrando e puxando, com a base chata da pedra. Ele fez esse movimento várias vezes, até que o alimento se tornou mais pastoso, menos granulado. Abriu o saco, lavou as mãos, e com a ponta dos dedos tentou alimentar Erick. A criança não gostou muito, fez várias vezes movimentos com a cabeça para se esquivar da ração pastosa, mas no fim, acabou cedendo. Alatheu achou estranho o fato de Erick ainda não ter chorado, ele passou por difíceis provações tranquilamente até este momento. Na verdade, ele estava agradecido por Erick não chorar, para que os caçadores da noite não os encontrassem com tanta facilidade. Mas Alatheu, seja por cansaço físico ou mental, não percebeu quando o mato ao seu redor se moveu. Quando deu por si Alatheu já estava sendo derrubado por uma criatura que colocou as quatro patas em seu peito, forçando o cavaleiro contra o chão. Era grande, felina, negra, com olhos amarelos, e bigodes de gato. Parecia uma pantera noturna. Ele não sabia dizer, apenas sentia o hálito quente e podre que saia da boca do predador da noite.
A criatura rosnava alto, com seus dentes a mostra, e tentava a todo o custo morder o rosto do cavaleiro que usando bem suas mãos ligeiras, a mantinha em uma distância segura. Alatheu tentou impulsionar sem sucesso a criatura para longe de seu corpo, ela era pesada demais, e a força que suas patas imprimiam contra seu peito equivalia a quatro grandes homens o segurando ao chão. Ele não conseguia ter muita mobilidade, a pantera usou bem o espaço que tinha impedindo o cavaleiro de conseguir desferir qualquer chute. Suas mãos não podiam largar a boca da criatura, senão a mordida seria fatal. Os olhos do Érome cruzaram os olhos da pantera, eram de um amarelo intenso, hipnotizante, e ele era capaz mesmo de se sentir mais fraco apenas olhando para eles. Este mesmo olhar tinha tal intensidade e fixação que parecia querer roubar sugando monstruosamente a energia de sua presa. A pantera sabia que jantaria essa noite, e ela apenas estava brincando quando tentava morder o cavaleiro, sem usar toda sua força. Até mesmo sua cauda balançava de um lado para outro em júbilo.
Ele tinha que pensar rápido se quisesse sobreviver. Tentou mexer as pernas, chutar uma pedra próxima. Não funcionou. Tentou usar novamente a força de seu corpo, para jogar a criatura de lado ou pelo menos tentar um desequilíbrio, falhou novamente. Os bigodes da criatura começaram a retesar, a medida que suas garras penetravam na pele de sua vítima. Alatheu sentiu uma dor alucinante, enquanto sua pele ia sendo arranhada e rasgada ao mesmo tempo. Ele estava pronto para sucumbir. O último dos Éromes iria morrer assim, como uma presa infeliz de uma pantera da noite. E foi quando o seu raciocínio agiu por instinto mais uma vez. Semelhante a descida no penhasco de Nindorrel, uma idéia quase que sobrenatural apareceu em sua mente.
Ele inspirou fundo, e com toda intensidade e potência que conseguiu reunir na inspiração, cuspiu diretamente no focinho da criatura. A pantera imediatamente começou a espirrar, se desequilibrou, fraquejou por um instante, e quando tentou recuperar sua posição inicial, percebeu que já era tarde. O cavaleiro conseguiu aproveitar do seu truque para empurrar a criatura para o lado e rolar para o outro. Rapidamente Alatheu se colocou de pé, enquanto buscava em vão Prata Fria. Estava escuro, e a espada não estava próxima da pequena fogueira, devia ter caído em algum lugar com o avanço da criatura. Com as duas mãos bem abertas, e os pés afastados, Alatheu se posicionava para um bote. Iria tentar se esquivar. O segredo, sua mente dizia ao seu corpo, era se manter em movimento e não perder o contato visual. A pele negra da criatura daria a ela uma excelente oportunidade para se camuflar, e atacar quando e onde quisesse. Ele não podia dar a ela esta oportunidade. A pantera girava ao redor dele, com um olhar astuto, com as garras afiadas penetrando profundamente no chão, e levantando terra e poeira a cada passo dado. Ela rosnava, e lambia a boca. Alatheu aguardava o ataque.
Mas o bote não veio. Ela insistia em rodar o cavaleiro, se deliciando com o terror de sua presa. Sempre que podia se aproximava um pouco, lançava sua pata ao ar e atacava o vento, fazendo com que o cavaleiro preocupado, desse pulos para trás. Mas Alatheu não era bobo. Sabia o que a pantera estava fazendo. Estava cansando ele, deixando o cavaleiro tonto e desorientado com aquelas voltas. Ele sabia que aquela criatura era inteligente, e não arriscaria um confronto direto contra uma presa que era maior do que ela. Não sem a certeza absoluta da vitória. Ela não conhecia a derrota.
- Vamos lá felino, você me quer. Não é? - gritou Alatheu, chutando uma pedra na direção dela. – Venha! Ataque!
A pantera se limitou a olhar e a rodar. Alatheu deu um novo chute, e a pedra dessa vez atingiu a pequena fogueira liberando fagulhas ao ar. E foi por este golpe de sorte que Alatheu construiu sua vitória. Diante das fagulhas, a pantera desviou seu olhar, e se esquivou. Foi a reação que Alatheu esperava, ela acabou de mostrar seu ponto fraco. Muito rapidamente Alatheu arrancou com força sua camisa por debaixo da armadura e passou o tecido no fogo. A camisa em chamas iluminou bravamente o lugar, revelando onde a espada estava, e um garotinho em um cesto mais a distância. A pantera se incomodou, encolheu, se afastou. Foi a vez de o cavaleiro dar o bote.
Ele correu em círculos queimando o mato ao redor da pantera, que principiando a grunhir, começou a se sentir acuada. Tentava fugir por um lado mas o fogo consumia, ficando sem opções. Todo o local agora era um círculo de fogo ardente, que crepitava na noite silenciosa. A pantera foi tomada de pavor, e por intuição correu e pulou a parede de fogo, sumindo na escuridão da mesma forma que apareceu.
Alatheu então apagou o fogo de sua camisa e a jogou fora. Estava imprestável. Mas não sem antes arrancar um ou outro pedaço de tecido ainda utilizável, para acender outros círculos iguais a este, enquanto durasse sua jornada pelos Talautos. Ele então se aproximou de uma destas chamas crepitantes, e colocou a ponta de prata fria nela. Demorou muito tempo antes de Prata Fria começar a demonstrar sinais de incandescimento. Com a ponta da espada, aproximou aos ferimentos forçando uma cicatrização abrupta e diminuindo a probabilidade de infecção. A dor era intensa, mas foi suportada apenas com a expressão de cara feia do Érome, sem emitir um só grito. Desta maneira Alatheu passou pela região dos Talautos, sem comer, sem dormir, com seu peito diretamente em contato com o frio da armadura, exposto pelo vento da noite, aquecido e queimado pelas chamas dos círculos de fogo, mas vivo, e com Erick respirando.
Finalmente o Érome avistava os Campos Centuriais. Aquela deveria ser uma visão excelente de uma planície verde e amplamente aberta. Estes campos foram marcados por intensas guerras a muitos séculos atrás, e contam as tradições da Corsária, que muito antes de existir o primeiro corsarianos, elfos, anões e gigantes travaram uma luta entre si nesta região. Muitos seriam os corpos dos bravos guerreiros que repousavam embaixo da grama, agora amarelada pela seca. Alatheu sabia que estava pisando em um cemitério secular, mas era melhor do que andar pela região de Talautos. Aqui pelo menos ele não precisava se preocupar com predadores noturnos que chegavam de surpresa, e nem precisaria fazer os círculos de fogo eclipse após eclipse. Já haviam passado, vinte e oito eclipses desde a saída de Nindorrel. Enquanto ele caminhava pela planície amarelada, ele lembrava do calor dos braços de sua esposa. Aline tinha se tornado sua maior força interior desde que ele perdeu Yorish. Era nela que ele pensava, era com ela que ele conversava, e era ela que ele ouvia.
Por muitas vezes, em meio a solidão, Alatheu jurava ter ouvido sua esposa o chamando. Sussurrando seu nome, acariciando seus ouvidos com palavras doces. Alatheu estava pálido e abatido. As garras da criatura deixaram cicatrizes feias em sua pele, criando bolhas de carne ao longo de toda a extensão rasgada. Não era uma visão agradável, e fez o cavaleiro se perguntar o que Aline haveria de dizer diante destas cicatrizes. Provavelmente guardaria para si seu desgosto, e se contentaria em ver seu marido chegando vivo, para o aconchego de seu lar.
Enquanto caminhava, Alatheu tentava pensar no que iria fazer quando chegasse na região bárbara do Levante. O cavaleiro já tinha ouvido a fama de Barack, que já havia preocupado várias vezes Lionel. Sabia da violência dos métodos do bárbaro, e do desejo ganancioso de estender seus domínios por toda a Serata. Esta era uma região de penhascos gigantescos e pontiagudos, que formavam uma barreira natural, como muralhas, impedindo que qualquer exército pudesse alcançar o Levante com facilidade e rapidez. O problema maior é que esta região é corsariana, e Lionel sempre mantinha guarnições espalhadas pelo local, que freqüentemente lutavam contra os bárbaros. Alatheu esperava encontrar uma destas guarnições. Esperava que a sorte começasse a favorecer seus caminhos novamente. Na certa a guarnição estaria sem saber que Lionel estava morto, e que Félix era seu novo comandante. E ele, como sendo Érome, gozava de direitos mais que especiais, e seria muito bem tratado no abrigo dos homens na região.
Mas ele sabia que não podia ficar muito tempo lá. Félix não era bobo, já percebia que alguém havia fugido de Nindorrel. Mas ao menos Alatheu esperava que ele não soubesse quem havia fugido e com o que havia fugido. E ele não daria a oportunidade para o novo rei descobrir o motivo. Não tinha jeito, ele teria que se refugiar no Levante por algum tempo até descobrir o que fazer. Lá, poderia lutar na Arena de Karack, ter seu nome conhecido pela população local, e alcançar rapidamente altas posições. Com isso, conseguiria ter tempo e facilidades para organizar melhor os próximos passos. Ainda tinha o detalhe de sua armadura de Érome, ele não duraria muito usando qualquer símbolo da Corsária naquela região; muito embora qualquer um que o visse naquele estado, jamais o imaginaria como um nobre corsariano, um guerreiro de elite de Lionel Nindorrel.

Serata: O Choro de um Nobre
A cabeça de Alatheu doía, e o suor encharcava todo o seu corpo. O sol queimava sua pele e para proteger Erick, ele empapava o tecido que encobria o garotinho com um pouco de água do cantil. Já restava pouca água agora, e poucos sacos de ração. Erick parecia muito mais magro, fraco e debilitado que no dia em que saíram do castelo. Mas ainda assim, era possível ver a pele rosada da criança, e um sorriso maroto, porém tranquilo e pacifico.
Mas a inanição começou a fazer efeitos drásticos, Alatheu já se sentia desorientado, e caminhava mais pelo coração do que pela razão. Não sabia ao certo se estava caminhando direito. Só sabia que tinha de prosseguir, ir em frente, manter Erick vivo, e não parar. Seus pés latejavam. O cavaleiro então parou. Parou e caiu de joelhos. Deixou Erick do lado, e chorou. Chorou como uma criança. Chorou por não sentir mais força em seu sangue. E enquanto suas lágrimas corriam, seus olhos podiam ver criaturas pequenas rastejando ao redor das gramas secas. Eram vermes. Alatheu não pensou duas vezes, com ímpeto ele pegou um punhado de terra, que era macia e fácil de ser arrancada, e agarrou os vermes. Colocou todos eles na palma de sua mão e os comeu. As primeiras investidas causaram uma reação tão nauseante que ele colocou para fora tudo outra vez. Mas ele precisava se alimentar. Tentou novamente, e desta vez conseguiu engolir. Seu estômago, que não via comida há vários eclipses, embrulhou instantaneamente. O Érome começou a passar mal, com tremores na área abdominal. Caiu ao chão e contorceu de dor com cólicas. Depois de um tempo, respirou fundo, e continuou a caminhada, até avistar os primeiros arranha-céus da Serata. Eram altos, a perder de vista, e trespassavam as nuvens como lanças. Toda a região era de um marrom claro vivo e puramente seco.
Alatheu se aproximou pela lateral dos penhascos e não viu nenhuma trilha visível. Geralmente os mercadores aproveitavam o relevo natural e abriam várias trilhas que levavam a outras regiões. Por todo o lugar, existiam rochas secas e poeira sendo levantada pelo vento. O Érome caminhava tonto e enfraquecido, tentando ficar alerta para alguma trilha que o conduzisse ao Levante. Talvez se ele estivesse descansado e bem alimentado, esta tarefa fosse mais fácil. No entanto, tudo o que ele conseguia ver era um paredão de montanhas e penhascos, com várias fendas entre eles. Os gaviões voavam acima das nuvens com barulhos estridentes, enquanto que as hienas observavam atentamente o cavaleiro.
Mas Alatheu não reparava nos animais, ele apenas queria conseguir achar alguma trilha, era tudo o que ele pensava. Caminhou sem sucesso por vários momentos até o escurecer. Embora estivesse na estação das secas, ventava frio na base da montanha, o que fez o cavaleiro se encolher, mas não antes de verificar se o garoto estava bem aquecido. Erick dormia inquieto, por vezes se batendo no cesto, como se estivesse tendo reações involuntárias. O cavaleiro se encostou contra o paredão tentando manter seus olhos abertos, lutando contra o sono e o cansaço. Olhou para o seu estoque de rações: só mais dois sacos fechados, o que daria apenas para alimentar a criança durante a passagem da região. Ele não sentia mais seu estômago roncar, a fome e a desnutrição se alastrou por todo o seu corpo. Quase três eclipses inteiras se passaram até que Alatheu pudesse achar um caminho confiável.
A trilha não era larga, dava apenas para dois homens caminharem lado a lado, e ficava entre dois penhascos extremamente altos. O sol quente e a poeira impregnada nas roupas davam ao cavaleiro uma situação incômoda. Seus braços e suas pernas não estavam mais vermelhos, mas já se encontravam profundamente queimados pelo sol quente que ele enfrentava desde quando saiu da Floresta Canaléia. Alatheu sentia dentro de seu organismo que ele não iria conseguir atravessar toda a trilha. Talvez levasse mais que dez eclipses para alcançar o outro lado. Ele não podia arriscar desmaiar no meio do caminho, precisava de algo para comer, mas não podia usar a ração de Erick. Ele olhou ao redor e nada encontrou. Não existia nenhum animal por perto, nenhum som de inseto, o lugar inteiro era completamente desértico e isolado. Mas ele sabia que a trilha ainda estava sendo usada, pois encontrou várias pegadas no chão, borradas pela ação do tempo.
Não ventava no local, o que tornava a região mais sufocante. Estas sensações tomavam conta de sua mente até que seus olhos avistaram finalmente algo que poderia servir de alimento. Como se fizessem uma fila indiana, alguns escorpiões negros caminhavam entre as rochas para dentro de frestas na parede. O cavaleiro se apressou, colocou o cesto de Erick ao chão, e desembainhou Prata Fria. Com a parte chata da espada, ele tentava prender o corpo dos escorpiões, esmagando antes de cortar. Em Nindorrel, ele não conseguiria se imaginar comendo escorpiões, mas o gosto azedo nem foi sentido quando ele engoliu a carne da criatura. Seja pela fraqueza ou pela tontura, um dos escorpiões não foi completamente esmagado, e quando a mão do Érome se aproximou, foi o suficiente para ser picado.
A região imediatamente inchou. E ele sentiu todo o seu corpo estremecer. Assustado pelo ataque da criatura, Alatheu se afastou, olhou ao redor, e vomitou. Sua testa suava frio. Ele carregou o cesto de Erick, e voltou a caminhar. Mas a ação do veneno era mortal, a medida que Alatheu caminhava começou a sentir suas forças se esvaírem, e quando ele menos esperava, passou a se arrastar entre as pedras. Já não conseguia pensar direito, seus pensamentos giravam em sua mente, e seu raciocínio perdera seu instinto de sobrevivência natural. Ele molhou um pouco de água em sua boca seca, e lançou um pouco sobre os olhos, tentando se despertar. Conseguiu se levantar, mas andava com dificuldades. Sua respiração começava a alterar o ritmo, cada vez mais frenético, como se puxasse um ar que não vinha.
As duas luas estavam na posição mais alta do céu, escurecendo o poder do sol, fazendo com que toda a região ficasse sem luz, quando o Érome decidiu procurar uma fresta para descansar. A sua caminhada foi drasticamente reduzida desde a picada do escorpião. Ele tateou o local, estava sensivelmente inchado, e sua mão, toda vez que se contraia, doía extremamente. Com dificuldades, e ainda usando o tato para se localizar, ele conseguiu achar uma abertura na base de um dos penhascos.
A abertura não era muito grande, se assemelhava com uma mini caverna naturalmente formada. Ele se aproximou do fundo da fresta, colocou Erick um pouco a distância, atritou com dificuldades duas pedrinhas em alguns gravetos e folhas secas que ele tinha desde a floresta, criando uma pequena fogueira; e sentou. Sentou olhando para o teto da caverna, foi quando sua visão começou a falhar. Alatheu não tinha mais dúvida, ele sabia o que ia acontecer desde que foi picado.
O veneno de um escorpião negro é mortal, e ele não tinha muitos momentos de vida. Alatheu tentou chorar, mas seu corpo não tinha mais lágrimas. Ele puxou sua bolsa para perto de si, e retirou de lá um pergaminho vazio e algum material para escrita. Ele não sabia o porque estava fazendo isso, seja por instinto ou apenas para desabafar por ter falhado com sua missão. Escreveu, olhando para Erick, como se o garoto pudesse ler, pudesse escutar seus pedidos de desculpas. E escrevia, com as mãos trêmulas, por vezes deixando a sua pena escorregar entre os dedos. Seu coração batia extremamente forte, fazendo com que toda sua respiração fosse pesada e difícil. Ele tentava pensar, organizar as idéias, resumir o que queria dizer. Alatheu precisava contar a Erick quem ele era e o que deveria se tornar, e foi ao utilizar estas últimas energias que a pena de Alatheu aliviou a pressão, escorregando pelo pergaminho. Seu braço pendeu para o lado, e todo o seu corpo jazia parado.
E pela primeira vez, ouviu-se o choro de uma criança...

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