As aventuras de Aramis "Rennot" d'Amiens

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Omiaranho
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As aventuras de Aramis "Rennot" d`Amiens

Mensagem#1 » 12 Jul 2011, 23:38

PRELÚDIO

Corria. Suas pernas rijas e pesadas ainda teimavam em conduzi-lo pelas tortuosas alamedas de la Maison du Lille. A parca iluminação provida apenas pelo luar dificultava as passadas. Fugia. A visão dos bosques ao redor da casa que por tanto tempo viveu, em breve, tronar-se-iam apenas uma lembrança. Chovia. A água tornava traiçoeiro o chão, inflexíveis suas roupas, vermelhos os seus olhos e turva a sua visão. Doía. A respiração pesada maltratava seu peito. A velocidade escapava lentamente de seus pés trôpegos a cada pontada que sentia no baço. Olhou por sobre o ombro e só vislumbrou o passado. Vacilou.

Seus joelhos caíram por terra enquanto o braço se sacrificava. Sentia gosto de terra, o chapéu rolou mais a frente, a espada jazia ao seu lado e a prataria, furtada de seu antigo lar, gritou um berro abafado pelas águas que desabavam.Aramis, ou como prefere hoje ser chamado, Rennot, recolheu seus pertences e erguia-se penosamente, enquanto limpava a face. Havia lama por todo o gibão, que não sendo um gibão qualquer, ostentava medalhas e insígnias militares, porém não condizia com o tamanho diminuto de seu usuário. Esta indumentária inapropriada e o semblante carregado de vergonha que o rapaz apresentava compunham uma cena curiosa que mais lembrava um molecote logo após ser descoberto pelo pai, por ter vestido escondido sua farda e saído avidamente pela chuva rendido às traquinagens.

Ainda que excitado pela fuga, olhou a si mesmo numa inesperada reflexão. E também ele viu uma criança em si, e sentiu-se reconfortado pela visão. Não pelo medo de envelhecer que atinge os mortais – pois aos seus dezessete anos, era novo demais para sofrer destes medos –, mas porque ao sentir-se uma criança inocentava-se de seus pecados.
Esta breve reflexão, que pode ter durado o intervalo de tempo com que um relâmpago cortou o céu, foi cortada por um novo vislumbre: sob o gibão desabotoado encontrava-se sua camisa de algodão que, se antes, alva como uma pura alma, agora enrubescia – o sangue que estampava a camisa não era seu.

Ergueu a fronte aos céus e estufou o peito na esperança das águas carregarem de vez sua vergonha. “Talvez Ele tenha enviado estas águas para me lavar”, pensou enquanto esboçava um sorriso. E as águas desbotaram a mancha; e tornaram-na róseas até, mas ele sabia que mais do que isso elas não poderiam fazer. E enquanto aquele gibão permanecesse aberto, ele e qualquer outro poderiam ver sua desonra. Abotoou-o energicamente e com igual energia tornou a correr.

Olhou,mais uma vez, para retaguarda a procura de perseguidores: ninguém. O sangue que derramou não o deixaria viver em paz onde quer que fosse. Não sabia se estavam atrás dele, mas sabia que tinha de fugir. Temia a retaliação e, jovem, achava que era disso que corria.

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